sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

AVE, CÉSAR

AVE, CÉSAR! (Hail, Caesar!, 2016, Working Title Films, 106min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Robert Graf. Produção: Tim Bevan, Ethan Coen, Joel Coen, Eric Fellner. Elenco: George Clooney, Josh Brolin, Channing Tatum, Ralph Fiennes, Scarlett Johansson, Alden Ehreinreich, Tilda Swinton, Frances McDormand, Jonah Hill, Alison Pill, David Krumholtz. Estreia: 01/02/16

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

Não é a primeira vez que os irmãos Coen brincam com os bastidores do cinema: em 1992 eles realizaram "Barton Fink: delírios de Hollywood", onde o dramaturgo interpretado por John Turturro (melhor ator no Festival de Cannes) se via diante de um inédito bloqueio criativo justamente quando é contratado para escrever o roteiro de um filme. Em "Ave, César", porém, eles vão ainda mais longe em seu retrato do mundo de ilusões construído pela capital do entretenimento - mais especificamente aquele erguido dentro do sistema dos grandes estúdios na década de 50. Sem deixar de lado seu humor cáustico e a preferência por personagens à margem do sistema (mesmo quando inserido nele), a dupla de cineastas faz uma das mais consistentes homenagens à indústria realizadas nos últimos anos, repleta de citações a astros e gêneros de um dos períodos mais ricos de Hollywood. Injustamente esquecido pelo Oscar e demais cerimônias de premiação da temporada (concorreu a uma única estatueta, por sua impecável direção de arte), "Ave, César" pode até ser considerado por muitos críticos como uma obra menor da dupla de diretores e roteiristas, mas jamais deixa de ser uma excelente opção para quem procura diversão inteligente.

Apesar de George Clooney ser o maior astro do elenco - e parceiro frequente dos cineastas, tendo trabalhado em "E aí, meu irmão, cadê você?" (2001), "O amor custa caro" (2003) e "Queime depois de ler" (2008) - o protagonista da história é interpretado por Josh Brolin, em mais uma atuação inspiradíssima. Ele interpreta Eddie Mannix, que vive de resolver crises nos bastidores de um grande estúdio da Hollywood dos anos 50, a Capitol Pictures. A trama se passa em um único dia, em que Mannix parece sobrecarregado de problemas alheios: o maior nome do estúdio, Baird Whitlock (George Clooney) - que está no final das filmagens de um milionário épico religioso - acaba de ser sequestrado por um grupo chamado "Nós somos o futuro" (na verdade, um grupo de roteiristas comunistas frustrados com o pagamento pífio que recebem por seu trabalho); a atriz DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) está grávida e precisa esconder a situação dos fãs e da imprensa (que também não podem saber de sua vasta coleção de ex-maridos); o jovem astros de westerns Hobie Doyle (Alden Ehrenreich) está com dificuldades em fazer a transição para filmes dramáticos, para desespero do diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes); e a dupla de irmãs colunistas de fofocas Thora e Thessaly Thacker (Tilda Swinton) ameaça por a boca no trombone e publicar uma história que em nada beneficia Whitlock. Sua única forma de escapar é aceitar a proposta de investir em uma companhia aérea que lhe oferece uma tentadora opção de vida.


Sem uma trama forte o bastante para sustentar seus 106 minutos, "Ave, César" (título do filme religioso estrelado por Baird Whitlock) constrói sua narrativa através da jornada de Mannix em busca da solução para os problemas que lhe são apresentados. Costura-se, assim, de forma orgânica e ágil, uma seleção de sequências fascinantes que vão formando um rico e empolgante panorama do cinema americano dos anos 50, com suas estrelas cintilantes e suas produções gigantescas. Nitidamente apaixonados por sua arte, os irmãos Coen conduzem o espectador por cenas que remetem diretamente aos espetáculos aquáticos de Esther Williams - através da personagem de Scarlett Johansson - e aos musicais de Gene Kelly - Channing Tatum mostra todo o seu dom de dançarino em uma bela sequência que em nada fica a dever aos clássicos do período. Até mesmo o épico produzido pelo estúdio fictício tem ecos de "Ben-hur"- e é hilariante a cena em que Mannix se reune com lideranças de várias religiões tentando encontrar um denominador comum que não ofenda a ninguém. Josh Brolin brilha com uma performance ao mesmo tempo irônica e desesperada, encontrando o tom exato de um personagem típico da dupla de diretores, que cutucam desde o poder dos estúdios sobre seus contratados até a histeria comunista que tomava conta do país no período. Contando ainda com participações especiais de Frances McDormand e Jonah Hill e uma reconstituição de época primorosa, "Ave, César" é uma comédia que substitui as gargalhadas pelo sorriso, mas é difícil não considerá-la uma das melhores produções do gênero na temporada.

Repleto de uma ironia deliciosa que se mistura com naturalidade à sincera homenagem à era de ouro de Hollywood, "Ave, César" conquista os fãs de cinema justamente por oferecer-lhes uma visão tanto romântica quanto satírica de suas entranhas. Enquanto o protagonista caminha pelos desvãos da indústria, o público acompanha, fascinado, os bastidores de um mundo à parte, construído por trás das câmeras e que move milhares de pessoas, muitas vezes anônimas. Ao virar sua câmera para o lado menos glamouroso do showbizz, o filme desmascara, com bom humor e sarcasmo, as aparências de um universo milimetricamente forjado para agradar um público ainda muito conservador, que rejeitava mães solteiras e galãs homossexuais mas consumia vorazmente qualquer fofoca a seu respeito. A força irresistível de tanto poder fica clara nas cenas finais, que parecem dizer que, apesar dos pesares, a arte sempre vale a pena. Uma comédia iluminada e sofisticada, "Ave, César" é um dos trabalhos mais fascinantes dos irmãos Coen. E, de quebra, um dos mais divertidos relatos sobre os bastidores do cinema.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

FEBRE DE JUVENTUDE

FEBRE DE JUVENTUDE (I wanna hold your hand, 1978, Universal Pictures, 104min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Robert Zemeckis, Bob Gale. Fotografia: Donald M. Morgan. Montagem: Frank Moriss. Figurino: Roseanna Norton. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/John Dwyer. Produção executiva: Steven Spielberg. Produção: Tamara Asseyev, Alex Rose. Elenco: Nancy Allen, Susan Kendall Newman, Theresa Saldana, Bobby DiCicco, Marc McClure, Wendie Jo Sperber, Eddie Deezen, Will Jordan. Estreia: 21/4/78

Hoje em dia é impossível acreditar que um dia um estúdio de Hollywood pudesse pensar duas vezes diante de um projeto que reuniria os Beatles, Robert Zemeckis e Steven Spielberg. Mas em 1978 as coisas eram bem diferentes: se a banda inglesa ainda era a maior do planeta mesmo tendo se separado há quase uma década e Spielberg já estava a caminho de tornar-se o cineasta mais bem-sucedido da história - já tinha no currículo "Tubarão" (75) e "Contatos imediatos de terceiro grau" (77) - o mesmo não poderia ser dito a respeito de Zemeckis, ainda inexperiente em comandar um longa-metragem para cinema. Escolhido pelo próprio Spielberg para dirigir a comédia "Febre de juventude", apesar da relutância da Universal, o cineasta que mais tarde encheria os cofres do estúdio com a trilogia "De volta para o futuro", o misto de animação e comédia "Uma cilada para Roger Rabbit" (88) e o multi-oscarizado "Forrest Gump: o contador de histórias" (95) só foi efetivamente contratado depois da promessa formal de que seu padrinho artístico assumiria as rédeas caso as filmagens estivessem sendo um desastre. Precaução desnecessária: não apenas "Febre de juventude" apontou no jovem cineasta um senso invejável de ritmo como tornou-se, com o passar do tempo, em um filme cult, um clássico das sessões da tarde, capaz de estampar um sorriso no rosto do espectador sem fazer muita força para isso.

É difícil não simpatizar de cara com "Febre de juventude", tanto por sua trama ingênua e repleta de nostalgia quanto por seu elenco, formado por jovens atores desconhecidos que encarnam seus personagens com uma garra contagiante. A história se passa em fevereiro de 1964, mais precisamente nos dias em que os Beatles chegaram pela primeira vez aos EUA, para uma apresentação no programa de Ed Sullivan, em horário nobre na televisão. Sua presença em solo americano acende ainda mais a beatlemania já instaurada entre os adolescentes e jovens e o roteiro esperto de Zemeckis e Bob Gale - posteriormente indicado ao Oscar por "De volta para o futuro" - se concentra em um grupo específico de amigas, moradoras de Nova Jersey, que, por motivos diversos, resolvem fazer a travessia à Nova York para testemunhar esse momento histórico na cultura pop. Pam (Nancy Allen) reluta em acompanhar as amigas porque está às vésperas de casar-se, mas decide que nada melhor do que uma pequena aventura para marcar sua despedida de solteira. Grace (Theresa Saldana) quer dar um passo à frente em sua vocação como fotógrafa e conseguir uma imagem exclusiva do grupo para vender a alguma revista. Rosie (Wendie Jo Sperber) é apaixonada por Paul McCartney e sonha em conhecer seu ídolo. E Janis (Susan Kendall Newman, filha do ator Paul Newman) é uma jovem politicamente ativa que acredita que o rock está eclipsando a verdadeira música de protesto de gente como Joan Baez e Bob Dylan. Juntam-se a elas o tímido Larry (Marc McClure) - cujo pai tem um carro que pode ajudá-las na viagem - e o encrenqueiro Tony Smerko (Bobby Di Cicco), que une-se à Janis em sua cruzada contra a banda inglesa.


Sem confundir-se com os inúmeros focos narrativos que acompanham suas personagens, o roteiro de "Febre de juventude" é o divertido retrato de uma época que ainda mantinha resquícios de ingenuidade, apesar do trauma da morte de JFK, ocorrida poucos meses antes dos acontecimentos mostrados no filme. Embalado na trilha sonora recheada com os maiores sucessos dos Beatles, a produção de Zemeckis convida o espectador a uma divertida e nostálgica viagem no tempo, revelando em sequências hilariantes a verdadeira obsessão das fãs pela banda. Não faltam gritos histéricos, desmaios e uma sucessão de pequenas anedotas para emoldurar as desventuras das protagonistas, que aproveitam os dois dias para realizarem uma espécie de jornada rumo à vida adulta: nenhuma delas passa incólume pela experiência, seja em termos pessoais ou emocionais. Pam passa a questionar sua decisão de casar; Grace substitui a ambição profissional à toda prova pela lealdade; Janis aceita abdicar do radicalismo e respeitar as diferenças; e Rosie descobre o amor inesperadamente. Mesmo que muitas vezes não fuja dos estereótipos - talvez pela opção em concentrar-se na ação mais do que no aprofundamento das personagens - "Febre de juventude" apresenta seus personagens com respeito e carinho, transformando em comédia seus percalços sem apelar para o caminho fácil da ridicularização. A sensibilidade imposta por Zemeckis equilibra com perfeição o humor quase infantil de alguns momentos, oferecendo ao resultado final uma interessante camada extra de inteligência que o diferencia de outras produções do gênero.

Realizado com um orçamento mínimo e sem maiores pretensões, "Febre de juventude" não foi um sucesso de bilheteria, mas deixou claro para a Universal o talento de Robert Zemeckis como contador de histórias e de Steven Spielberg como produtor executivo - uma função que o diretor de "Caçadores da Arca Perdida" (81) iria desempenhar religiosamente a partir de então. Leve, engraçado e valorizado pela trilha sonora arrebatadora a cargo do quarteto de Liverpool, é um passatempo divertido e nostálgico, sem contraindicações e dotado de um humor ingênuo e cativante. Pode não despertar gargalhadas histéricas o tempo todo, mas é uma comédia muito acima da média que, assim como "Loucuras de verão" (73), de George Lucas, remete a um passado então recente com extremo carinho e saudade. Um belo programa.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

CIDADÃO X

CIDADÃO X (Citizen X, 1995, HBO Pictures, 105min) Direção: Chris Gerolmo. Roteiro: Chris Gerolmo, livro de Robert Cullen. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Edelman. Figurino: Maria Hruby. Direção de arte/cenários: Jószef Romvári/Lóránt Jávor. Produção executiva: Laura Bickford, Matthew Chapman, David R. Ginsburg. Produção: Timothy Marx. Elenco: Stephen Rea, Donald Sutherland, Max Von Sydow, Jeffrey DeMunn, Imelda Staunton, Joss Ackland. Estreia: 25/02/95

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Filmes, Séries ou Minisséries (Donald Sutherland)

O mais famoso e cruel assassino serial da história da Rússia, Andrei Chikatilo, acumulou mais de 50 mortes no período compreendido entre 1978 e 1992. Suas vítimas eram predominantemente menores de idade, meninos e meninas que violentava, assassinava e mutilava enquanto era incansavelmente caçado pela polícia, incapaz de acreditar que seu país pudesse ser o cenário de tamanhas atrocidades. Finalmente preso e condenado, Chikatilo virou manchete pelo mundo todo, e não demorou para que sua história se mostrasse material ideal para uma adaptação para o cinema. Para surpresa de muitos, porém, quem passou à frente dos grandes estúdios de Hollywood foi a televisão: produzido pela HBO - anos antes de tornar-se uma marca famosa pela qualidade de seus produtos - o telefilme "Cidadão X" estreou nos EUA exatamente um ano depois do desfecho da aterrorizante trajetória do monstro russo, e, com um elenco de grandes atores e a ousadia de não aliviar a violência da trama, acabou por mostrar-se uma bela opção de entretenimento para os fãs do gênero.


Fazendo algumas modificações na história original - principalmente em relação à dinâmica entre o principal investigador do caso e seus superiores - o roteiro de "Cidadão X" começa com a descoberta do corpo de uma adolescente em uma floresta. Insatisfeito com a forma com que sua equipe lidou com o caso, o dedicado Viktor Bukarov (Stephen Rea) pede que façam uma busca mais rigorosa no local do crime, à procura de mais indícios. Para sua surpresa, outros sete corpos são localizados enterrados nas proximidades, o que logo lhe deixa claro de que são todas vítimas de um mesmo assassino. Disposto a investigar a fundo o caso, ele conta com o apoio do Coronel Mikhail Fetisov (Donald Sutherland), que, sabendo como lidar com os meandros da política comunista e suas idiossincrasias, lhe oferece toda a ajuda possível, inclusive um encontro com um experiente psiquiatra, Alexandr Bukhanovsky (Max Von Sydow), que traça o perfil psicológico do criminoso a ser caçado, a quem passam a chamar de Cidadão X. Anos e anos se passarão, no entanto, antes que Viktor finalmente consiga por as mãos no monstruoso homicida, que se esconde sob a personalidade de um respeitável homem comum, funcionário de uma fábrica e discreto pai de família.



Ao optar por revelar a identidade do assassino logo no começo do filme - em impressionante atuação de Jeffrey DeMunn - e focar na quase obsessiva investigação de Viktor e seus problemas com as autoridades policiais russas, "Cidadão X" corria o risco de ver seu suspense diluído e, portanto, o interesse diminuído por parte da plateia. Porém, com um roteiro inteligente e uma edição sóbria - que sublinha os momentos de tensão sem que pareçam óbvios ou excessivamente sanguinolentos - a trama é conduzida sem sobressaltos, se equilibrando entre o enredo policial e uma (nem tão) sutil crítica à burocracia da Rússia comunista pré-Perestroika. Stephen Rea mais uma vez brinda o espectador com uma interpretação minimalista, sem maiores arroubos de genialidade, mas consistente o bastante para servir como os olhos da plateia diante da série de horrores que testemunha. Donald Sutherland ganhou um Golden Globe por seu desempenho como o chefe de Rea, mas é Max Von Sydow que praticamente rouba a cena, mesmo aparecendo em poucas mas cruciais sequências: seu embate com o cruel Chikatilo, já no terço final do filme, é de arrepiar, assim como todas as cenas em que o vilão se prepara para dar o bote em suas presas. Mesmo sem inovar na estética ou na narrativa, Chris Gerolmo consegue manter a tensão até o minuto final, que mostra o destino do serial killer com extrema elegância e sutileza.

Apesar da linguagem televisiva - e de conseguir driblar suas limitações com criatividade e bom senso - "Cidadão X" é, antes de tudo, uma excelente história, contada de forma correta e sóbria, com um elenco acima de qualquer crítica. Pode incomodar àqueles que procuram uma obra-prima do gênero, mas aqueles que o encararem como o que ele realmente é - um telefilme acima da média, realizado com extremo cuidado e talento - podem se surpreender e ver que a HBO já estava, na metade dos anos 90, a caminho de sua excelência técnica e criativa. Uma bela opção para quem gosta do gênero.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

ALEXANDRIA

ALEXANDRIA (Agora, 2009, Mod Producciones/Himenóptero, 127min) Direção: Alejandro Amenábar. Roteiro: Alejandro Amenábar, Mateo Gil. Fotografia: Xavi Giménez. Montagem: Nacho Ruiz Capillas. Música: Dario Marianelli. Figurino: Gabriella Pescucci. Direção de arte/cenários: Guy Hendrix Dyas/Larry Dias. Produção executiva: Simón de Santiago, Jaime Ortiz de Artiñano. Produção: Álvaro Augustin, Fernando Bovaira. Elenco: Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac, Ashraf Barhom, Michael Lonsdale, Rupert Evans. Estreia: 17/5/09 (Festival de Cannes)

Houve uma demora de cinco anos entre o lançamento de "Mar adentro" - Oscar de melhor filme estrangeiro em 2005 - e "Alexandria", realização seguinte do cineasta chileno Alejandro Amenábar. Nada de novo: entre "Os outros" (2001), seu primeiro grande sucesso internacional, e "Mar adentro", que lhe deu reconhecimento e prestígio entre a crítica, o intervalo já havia sido de consideráveis três anos - uma eternidade dentro da veloz indústria hollywoodiana, mas um período de tempo relativamente aceitável quando se trata de diretores detalhistas e dedicados a projetos menos óbvios. É o caso de "Alexandria", que custou bastante caro (cerca de 70 milhões de dólares) para uma produção sem grandes efeitos visuais ou garantia de retorno (leia-se chamarizes de bilheterias, como grandes astros ou personagens facilmente identificáveis, como super-heróis ou personalidades conhecidas da plateia) e acabou pagando um preço alto por sua ousadia. Praticamente ignorado pela crítica e um fiasco comercial, a história da filósofa e astrônoma grega Hipátia não encontrou seu público e terminou sua carreira nos cinemas com uma renda pouco superior a 700 mil dólares de arrecadação. Tal desastre não apenas arranhou seriamente a reputação de Amenábar - que só retornou aos longas com o péssimo "Regressão" (2015) - mas privou a plateia de conhecer um filme que, se não é tão bom quanto os trabalhos anteriores do cineasta, ao menos tem uma inteligência muito acima da média - e uma relevância histórica extremamente importância em uma época de tanta intolerância religiosa como a atual.

Como o próprio título nacional sugere, o filme se passa em Alexandria, cidade egípcia famosa por seu farol e por sua biblioteca, considerada a maior do mundo. É lá, no ano de 391 que a trama, criada por Amenábar e Mateo Gil, tem início: Hipátia (Rachel Weisz, esforçada) é uma brilhante filósofa que leciona na célebre biblioteca local, ensinando a seus discípulos as ainda rudimentares noções de astronomia, além de matemática e filosofia. Bonita e inteligente, ela se dedica incansavelmente ao estudos dos movimentos dos corpos celestes, enquanto rejeita delicadamente as investidas de Orestes (Oscar Isaac em começo de carreira), um de seus alunos, e de Davus (Max Minghella), seu escravo pessoal. Em um período conturbado pelos conflitos entre cristãos, judeus e pagãos, ela precisa também manter-se no fio da navalha: racional, ela não sente-se à vontade em nenhuma religião, mas sabe que isso é potencialmente perigoso para sua integridade física. Quando os cristãos tomam o poder, graças à liderança de Cirilo (Sammy Samir) e Ammonius (Ashraf Barhom), ela não consegue impedir a destruição da biblioteca nem tampouco a violência que explode nas ruas da cidade. Vinte anos mais tarde, as coisas ainda estão delicadas: seu ex-aluno, Orestes, é o prefeito, mas não concorda com as atitudes radicais dos cristãos - que querem impor suas leis e perseguir quem lhes é contrário - e, com a ajuda de um antigo colega, Synesius (Rupert Evans), tornado bispo, tenta convencê-la a converter-se ao cristianismo como forma de manter suas aulas. Hipátia se recusa e entra em rota de colisão com o poder.


Ainda que encontre em Hipátia uma protagonista interessante e que serve como fio condutor de uma trama que tenta retratar a histórica rivalidade entre judeus e cristãos, o roteiro de "Alexandria" esbarra em uma comprometedora ausência de foco narrativo que enfraquece suas redentoras qualidades. Ao abraçar simultaneamente a trajetória da filósofa e os acontecimentos trágicos e violentos à sua volta, relacionados com a intolerância, Amenábar acaba por optar pela superficialidade em ambos os terrenos. A rica história de Hipátia muitas vezes fica em segundo plano - e frequentemente suas cenas são resumidas a longas explanações sobre seus estudos de Astronomia e suas questões relativas ao Universo: essa falta de aprofundamento em sua personalidade acaba por mostrar-se crucial, impedindo uma aproximação maior do público até mesmo quando o filme força um triângulo amoroso um tanto improvável entre ela, Davus e Orestes. Tal artifício, ao invés de envolver a plateia, acaba por diluir o impacto de algumas de suas melhores sequências - aquelas que mostram, de maneira sutil e elegante (mas sempre contundentes) os perigos que cercam o fanatismo e a falta de empatia entre as religiões. Essa indecisão narrativa, somada a um ritmo claudicante, enfraquece o conjunto, restando ao espectador apenas a opção de avaliar o filme por suas partes.

Se o roteiro falha em aprofundar seus temas e se distancia tanto do épico religioso quanto do romance, cabe ao elenco escolhido por Amenábar dar conta dessas inconsistências. E nesse quesito o cineasta não pode reclamar. Bom diretor de atores, o chileno tem em Rachel Weisz seu principal apoio: em um papel escrito especificamente para ela, a atriz premiada com o Oscar por "O jardineiro fiel" (2005) pode não estar em seu melhor desempenho, mas tem força dramática o suficiente para segurar uma personagem de cuja vida pessoal pouco se sabe e transformá-la em alguém de carne e osso, verossímil mesmo quando a trama escorrega para a tragédia. Oscar Isaac, ainda antes de conhecer o gostinho da fama, faz o que pode com seu Orestes, que começa como um potencial vilão e se transforma em um dos grandes apoiadores da protagonista - a cena em que desafia Cirilo e se recusa a ajoelhar-se diante da Bíblia é intensa e emocionante. Mas o maior destaque do elenco é o jovem Max Minghella, filho do diretor Anthony Minghella, vencedor do Oscar por "O paciente inglês" (96): com o ingrato papel do escravo cristão Davus, que assume importância crucial conforme a história vai avançando, Max demonstra maturidade e sensibilidade, assumindo todas as nuances de seu personagem com coragem e determinação de veterano - até mesmo sua transformação física é crível e realista. O cuidado de Amenábar em extrair o melhor de seus atores é seu maior trunfo: "Alexandria" fica marcado na mente do público justamente por causa deles, que dão vida a um argumento muitas vezes frágil e ambicioso demais. Ainda assim, é um filme injustiçado, que merece uma segunda chance.

domingo, 18 de dezembro de 2016

OS OITO ODIADOS

OS OITO ODIADOS (The hateful eight, 2015, Double Feature Films, 187min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Música: Ennio Morricone. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Georgia Kacandes, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher. Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Walter Goggins, Bruce Dern, Michael Madsen, Tim Roth, Demián Bichir, James Parks, Channing Tatum. Estreia: 07/12/15

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original 

Já nem é mais novidade: a cada filme novo de Quentin Tarantino que chega às telas o mundo se divide entre aqueles que o incensam como um dos mais originais e inventivos cineastas norte-americanos já existentes e aqueles que questionam seu talento e criatividade, lançando mãos de críticas que - vá lá - até fazem certo sentido sob determinados pontos de vista. Porém, a verdade é que, independente do fato de gravitar sempre em um universo todo particular (aparentemente localizado em algum lugar entre os anos 70 e 80 e povoado de filmes de baixo orçamento e roteiros pra lá de bizarros), Tarantino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano ainda capazes de suscitar tanta discussão e despertar tanto interesse da mídia, do público e da crítica. E não poderia ser diferente em relação a "Os oito odiados", seu oitavo longa, que correu o sério risco de jamais ver a luz dos projetores quando teve seu roteiro vazado antes mesmo da fase de pré-produção. Furioso com o imprevisto - e coberto de razão - Tarantino quase desistiu do projeto mas, convencido pelo amigo Samuel L. Jackson (apaixonado pela história e pelos personagens), voltou atrás na decisão. Sorte dos fãs inveterados (que encontrarão no filme, em versão exagerada, tudo que o diretor sempre ofereceu em seus trabalhos anteriores) e azar dos detratores (que, se arriscarem uma sessão, podem correr o risco de uma overdose de longos diálogos, sangue aos borbotões e maneirismos técnicos que a tantos agrada e a tantos outros repele).

Revisitando um gênero caro à sua memória afetiva, o western (que já havia homenageado com propriedade no ótimo "Django livre"), Tarantino acrescenta a "Os oito odiados" um clima de mistério à Agatha Christie e um tom teatral que enfatiza como nunca sua facilidade absurda de criar diálogos inspiradíssimos e personagens antológicos em situações extremas. Situando sua trama em um período imediatamente posterior à Guerra de Secessão, o diretor joga o público direto no gélido frio do Wyoming, onde a diligência do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell em um grande momento da carreira) encontra um concorrente, o famoso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson mostrando porque é um dos maiores atores americanos de sua geração, especialmente quando dirigido por Tarantino). Warren pede que Ruth lhe dê uma carona (e aos cadáveres que ele pretende trocar por uma gorda quantia de dólares) até a cidade de Red Rock e não demora para juntar-se a ele e à sua prisioneira, Daisy Domergue (a sensacional Jennifer Jason Leigh) na difícil viagem rumo a seu destino. Domergue é uma assassina procurada que Ruth tem a intenção de entregar ao carrasco de Red Rock e todos eles se surpreendem quando, ainda no caminho em direção à cidade, eles dão de cara com Chris Mannix (Walton Goggins), que alega ser o novo xerife do local e que também pede ajuda para chegar até lá.

No meio do caminho, devido a uma nevasca, a diligência se vê obrigada a fazer uma parada inesperada na estalagem de Minnie Mink (Dana Gourrier), uma conhecida de Warren que, em viagem para visitar a mãe, deixou o local aos cuidados do mexicano Bob (Demian Bichir). Juntando-se aos demais hóspedes também presos na hospedaria - o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o lacônico Joe Gage (Michael Madsen) e o veterano General Sandy Smithers (Bruce Dern) - os novos visitantes não demoram a perceber um clima de tensão e desconfiança no ar. O que ninguém sabe, porém, é que os comparsas de Daisy não tem a menor intenção de permitir que ela seja entregue e enforcada, e que tem um plano elaborado para resgatá-la antes de sua chegada a Red Rock. Caberá então ao perspicaz Major Warren descobrir quem do grupo reunido na hospedaria está ao lado da temida e debochada assassina.


"Os oito odiados" é Tarantino do primeiro frame - os créditos com o mesmo design dos letreiros já trai suas origens - ao último minuto - que chega somente depois de quase três horas de duração. Muitos reclamam da demora em começar a ação propriamente dita (tiros, sangue, violência), mas é difícil sentir-se incomodado ao ver em cena atores tão fantásticos - Samuel L. Jackson, Michael Madsen, Tim Roth, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh (os três primeiros repetindo a parceria com o diretor e Jennifer merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante) - desfilando seu talento pela tela. Com o auxílio luxuoso da bela fotografia de Robert Richardson (também indicada ao Oscar) e da sensacional trilha sonora do veterano Ennio Morricone (vencedor de sua primeira estatueta por seu trabalho), o filme realmente aparenta ter um problema de ritmo - só depois de uma hora e meia é que as coisas realmente começam a acontecer - mas basta olhar com atenção para perceber que nada é por acaso, nenhum diálogo é supérfluo e a longa duração serve para mergulhar o espectador na tensão indispensável ao clímax sanguinolento, de dar inveja à carnificina de "Cães de aluguel", filme de estreia de Tarantino e que o colocou, de primeira, no coração dos cinéfilos e da crítica.

Com uma violência estilizada que enfatiza seu humor nigérrimo - Jennifer Jason Leigh passa o filme inteiro sendo espancada, para horror das feministas - e o tom politicamente incorreto que sempre caracterizou a obra do diretor, "Os oito odiados" é a cara de seu criador. Seus diálogos são longos e expressivos. Sua violência é um misto de crueza e humor negro. Seu linguajar é cortante e realista, Não é uma obra-prima como "Pulp fiction, tempo de violência" ou "Bastardos inglórios", mas é mais uma declaração incontestável de um estilo cinematográfico que já está indelevelmente marcado na cultura popular norte-americana e mundial há pelo menos duas décadas, quer se goste ou não. Falem bem ou falem mal, é impossível ficar indiferente a um filme de Quentin Tarantino. E de quantos artistas se pode dizer o mesmo hoje em dia?

sábado, 17 de dezembro de 2016

MUNDO CÃO

MUNDO CÃO (Mundo cão, 2016, Zencrane Filmes/Globo Filmes, 101min) Direção: Marcos Jorge. Roteiro: Marcos Jorge, Lusa Silvestre. Fotografia: Toca Seabra. Montagem: André Finotti. Figurino: Cássio Brasil. Direção de arte/cenários: Valdy Lopes. Produção executiva: Cláudia da Natividade, Rune Tavares, Rodrigo Sarti Werthein. Produção: Iafa Britz. Elenco: Lázaro Ramos, Babu Santana, Adriana Esteves, Milhem Cortaz, Thainá Duarte, Vini Carvalho, Paulinho Serra. Estreia: 17/3/16

Dividido entre o sucesso comercial de comédias populares - normalmente de qualidade abaixo da média - e filmes com temática policial, o cinema nacional volta e meia tenta dar alguns passos em direção a outros gêneros e enfoques, nem sempre com muito êxito. Um dos exemplos positivos dessa constante busca por novos ares é "Mundo cão", um suspense urbano que tira proveito dos altos índices de intolerância e violência das cidades grandes para mergulhar o público em um pesadelo realista e perturbador. Seguindo a mesma linha do sensacional "O lobo atrás da porta", de Fernando Coimbra, o cineasta Marcos Jorge - que tem no currículo o elogiado "Estômago" (2007) - constrói sua trama dentro de uma realidade plausível e facilmente reconhecível pela plateia, transformando a segurança do lar e da família em um ambiente de medo e angústia. Pode não atingir o mesmo nível de desconforto, mas surpreende pela brutalidade psicológica e pela coragem de eleger como protagonista um cidadão comum e desprovido de qualquer tipo de heroísmo. É a vida real transposta para a tela, ainda que envernizada pela força da ficção e da linguagem cinematográfica.

O cenário é a São Paulo de 2007, antes da extinção da lei que permitia o sacrifício de animais abandonados. O protagonista é Santana (Babu Santana), que trabalha no Departamento de Combate às Zoonoses, recolhendo cães perigosos pelas ruas da cidade ao lado do colega, Ramiro (Paulinho Serra). Bom marido, pai dedicado e homem religioso, Santana nem imagina que toda a sua estrutura doméstica pode vir abaixo quando é chamado à uma escola por conta de um animal raivoso que está assustando as crianças. Trabalhando conforme a lei, os dois colegas levam o cachorro para o Centro, onde esperam o prazo de três dias antes que profissionais especializados o sacrifiquem. Quando o dono do animal aparece é que a coisa complica: Nenê (Lázaro Ramos) é um ex-presidiário, agressivo e explosivo, cuja renda vem parcialmente de rinhas entre cães - e, inconsolável com a perda de um de seus maiores campeões, resolve vingar sua morte. Quem acaba sendo escolhido como alvo para tal retaliação é justamente Santana, que parte em defesa própria no meio de uma discussão e deflagra uma guerra interna com resultados imprevisíveis.


A batalha que se segue - com a vingança de Nenê e a posterior revanche de Santana - é digna dos mais empolgantes filmes de suspense americanos. O roteiro não para de levar o espectador a caminhos os mais diversos, nunca deixando antever os próximos passos de seus personagens. Como um reflexo da irracionalidade animal, suas atitudes partem sempre em direção a consequências mais e mais violentas e incontroláveis, que atingem a todos que os cercam. É assim que Santana, pacífico pai de família, abandona a civilidade quando o que considerava sua maior fortaleza - seu lar em um subúrbio tranquilo - é maculado pela intensidade do ódio. Ao perceber que nem sua mulher, Dilza (Adriana Esteves, ótima), nem seus dois filhos - a adolescente Isaura (Thainá Duarte) e o menino João (Vini Carvalho) - estão a salvo da impetuosidade cruel de Nenê, ele deixa de lado todo e qualquer resquício de humanidade para tornar-se alguém capaz de defender o que lhe resta de dignidade e paz. Esse paradoxo é o grande trunfo do filme de Marcos Jorge: a violência como forma de recuperar a paz.

Com uma direção seca e pontual, que destaca as atuações viscerais de Babu Santana e Lázaro Ramos - o primeiro a quilômetros de distância do Tim Maia que lhe revelou ao grande público e o segundo com um registro de vilão construído em detalhes - "Mundo cão" é um artigo raro dentro da produção de cinema brasileiro. Apostando em um gênero ainda pouco explorado mas repleto de possibilidades, Marcos Jorge oferece ao público uma história forte, sustentada por atores competentes e uma tensão constante, que vai sendo ampliada conforme se percebe todos os seus desdobramentos. Ainda que em algum momento perto do desfecho o ritmo caia um pouco - até como forma de preparar o clímax, irônico e cruel - a edição se equilibra entre a agilidade necessária a um filme com ambições comerciais e a suavidade de uma obra que procura dialogar com discussões mais sérias do que simplesmente jogar nas telas uma sucessão de tragédias. Se sai bem na maior parte do tempo, envolvendo a plateia em sua rede desde as primeiras cenas, e só não é ainda melhor por estender-se demais no terceiro ato. Um pecado menor em um filme que está bem acima da média da produção comercial brasileira.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

A VISITA

A VISITA (The visit, 2015, Blinding Edge Pictures/Blumhouse Produtions, 94min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Maryse Alberti. Montagem: Luke Ciarrocchi. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Naaman Marshall/Dennis Madigan, Christine Wick. Produção executiva: Ashwin Rajan, Steven Schneider. Produção: Marc Bienstock, Jason Blum, M. Night Shyamalan. Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbuld, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn. Estreia: 30/8/15 (Dublin)

Nada como um reboot na própria carreira para recuperar o prestígio perdido. Que o diga M. Night Shyamalan, que depois de tornar-se diretor de um dos maiores sucessos da história do cinema, "O sexto sentido" (99) - e de ter sido indicado ao Oscar por ele - entrou em uma curva descendente das mais violentas de que se tem notícia em Hollywood, culminando em produções massacradas impiedosamente por crítica e público, como "O último mestre do ar"  (2010) e "Depois da Terra" (2013). Sabendo que a única forma de retomar as rédeas da carreira seria voltando a assumir o controle artístico total de sua obra, Shyamalan respirou fundo, bancou sozinho o orçamento de meros cinco milhões de dólares e, com liberdade irrestrita, voltou às boas graças com a imprensa e a plateia. "A visita" pode não chegar aos pés de seu filme mais famoso - tanto em qualidade quanto em bilheteria - mas prova, sem sombra de dúvida, que seu talento em provocar tensão e arrepios ainda se mantém intacto, assim como sua incrível capacidade de arrancar performances memoráveis de seus atores juvenis.

Se em "O sexto sentido" o diretor revelou Haley Joel Osment, que chegou a ser indicado ao Oscar de coadjuvante para depois desaparecer do radar de Hollywood como mais uma criança-prodígio que não soube superar a adolescência, em "A visita" ele multiplica a equação por dois, ainda que sem a mesma potência. A ótima Olivia DeJonge e o carismático Ed Oxenbuld vivem os irmãos Becca e Tyler, os protagonistas de uma trama bizarra e assustadora justamente por estar seriamente calcada na verossimilhança, assim como os demais filmes de Shyamalan, capaz de transformar um filme de super-herói em um drama psicológico dos mais atraentes, como fez em "Corpo fechado" (2000). Becca e Tyler são dois pré-adolescentes criados pela mãe (Kathryn Hahn), depois que seu pai os abandonou por outra mulher. Ainda não totalmente recuperados da perda, eles recebem o convite dos avós maternos para que passem uma semana em sua fazenda enquanto sua mãe viaja com o novo namorado. O convite não seria nada demais se não fosse por um detalhe importantíssimo: eles não conhecem os avós, que cortaram relações com a filha por não concordarem com seu namoro, anos antes. A tentativa de reaproximação é vista com bons olhos por Becca - que resolve filmar tudo para transformar em um documentário - e o encontro finalmente acontece. Mas então coisas estranhas começam a acontecer.


A princípio carinhosos e atenciosos, os avós (Deanna Dunagan e Peter MacRobbie) passam a demonstrar um comportamento no mínimo assustador depois que a noite cai e os netos são obrigados a permanecerem em seu quarto: ela anda nua pela casa, arranha paredes e solta ruídos apavorantes. Ele mantém algo escondido em um quarto de ferramentas. E aos poucos outras atitudes disparam o sinal de alerta em Tyler, muito mais disposto a acreditar que há algo sinistro acontecendo. Ele resolve, então, deixar uma câmera escondida na sala de estar - e a partir daí, outras revelações irão transformar uma inocente semana em família em um pesadelo de que só a mente criativa de M. Night Shyamalan é capaz, com direito a sustos, momentos de pura tensão e respiros de um humor quase inocente, que impede a trama de descambar para o terror explícito. Conduzido com mão firme pelo diretor, que abdica de trilha sonora original e aposta no já quase clichê found footage (câmera na mão, como um documentário), "A visita" acaba por conquistar o público exatamente por não ter ambições de revolucionar o gênero, e sim de enfatizar suas maiores qualidades e inclusive abraçar seus lugares-comuns. Seu ritmo é cadenciado, sem pressa de revelar antecipadamente todos os seus trunfos, e seu elenco de atores desconhecidos do grande público só deixa tudo ainda mais desconfortável.

Mesmo longe da genialidade de seus melhores trabalhos, "A visita" é um poderoso lembrete de M. Night Shyamalan à indústria que o elevou às alturas e depois praticamente o abandonou à própria sorte - em parte também por uma dose de presunção que o levou a cometer erros frequentes de avaliação sobre sua arte. Com orçamento enxuto, elenco sem astros e uma história envolvente, o cineasta mais celebrado do início dos anos 2000 recuperou parte do sucesso perdido. Que seja apenas o começo de uma nova e empolgante fase, em que o talento se sobreponha à ambição.