terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

DZI CROQUETTES (Dzi Croquettes, 2009, Canal Brasil, 110min) Direção: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Montagem: Raphael Alvarez. Produção executiva: Raphael Alvarez, Tatiana Issa. Produção: Raphael Alvarez. Estreia: 04/9/09

Em 1972, em plena ditadura militar, que havia privado a população civil da liberdade de expressão, um grupo de teatro formado por 13 atores/dançarinos sem medo de enfrentar o preconceito e dispostos a quebrar todas as regras pré-estabelecidas surgiu como um sopro de ar fresco nos palcos do Rio de Janeiro. Batizados de Dzi Croquettes - em uma homenagem debochada ao grupo norte-americano The Coquettes - e desafiando o bom-comportamento compulsório que vigorava no país, eles chocaram e conquistaram públicos surpreendidos com um humor cáustico e transgressor que não demorou em chamar a atenção da repressão - e os levar a buscar novos horizontes na Europa. Celebrados em Paris (onde tinham como madrinha ninguém menos que Liza Minelli), eles conheceram a fama, o delírio e uma liberdade artística que influenciou todo o teatro brasileiro dos anos subsequentes. Como forma de resgatar as lembranças de um período histórico da cultura nacional e apresentar às novas gerações uma das mais importantes manifestações artísticas já criadas nos palcos, o documentário "Dzi Croquettes" estreou no Festival Internacional de Cinema do Rio em setembro de 2009 e começou uma vitoriosa trajetória internacional, arrebatando prêmios em Los Angeles, Miami, São Francisco e Turim. Dirigido por Raphael Alvarez e Tatiana Issa, o filme é um precioso estudo sobre o amor ao teatro, a liberdade de expressão, a amizade e a genialidade de um grupo de pessoas que, munidas de bom-humor, garra, dedicação e muito talento, deixaram uma marca indelével nas artes cênicas do Brasil.

Acompanhando a trajetória da companhia desde seus primeiros passos - com a liderança crucial do bailarino norte-americano Lennie Dale, que também foi responsável por transformar Elis Regina em fenômeno dos palcos além da grande cantora que sempre foi - e mergulhando o espectador em um universo de alegria e coragem, os diretores constroem um minucioso mosaico histórico e cultural, que não apenas joga luz sobre cada um dos treze integrantes da divertida trupe, mas também ilumina um período de trevas pelo qual passou a arte brasileira, cerceada e violentada pela repressão mais vil e ignorante. Apesar de situar com clareza sua narrativa no auge da ditadura militar, porém, o filme opta, acertadamente, pelo tom alegre e alto-astral que caracterizava as apresentações. Borrando propositalmente as barreiras da sexualidade, eles subiam ao palco travestidos como mulheres, mas sem a preocupação de esconder a barba ou os pelos do corpo, criando um novo estilo de encenação que misturava música, teatro, dança e crítica social da mais inteligente e cáustica possível. De sua criação até o exílio na Europa - com direito a um final melancólico e algumas mortes traumatizantes - o documentário de Alvarez e Issa mapeia com precisão a importância de seus espetáculos para o futuro do teatro nacional e não tem medo de ensaiar momentos de grande emoção, mesmo que sutil.


Filha do cenógrafo Américo Issa, que trabalhou em alguns espetáculos do Dzi Croquettes, a codiretora Tatiana aproveita a deixa para acrescentar a um trabalho já relevante e imprescindível como documento histórico, uma dose de nostalgia e sensibilidade extra. Sem deixar-se cair na armadilha do sentimentalismo, ela usa de sua própria experiência (ainda criança) nos bastidores dos espetáculos para situar a companhia como um núcleo familiar sui generis, conforme eles mesmos se consideravam. Dando a cada um dos atores o espaço merecido, o roteiro mescla imagens de arquivo preciosas e entrevistas reveladoras de integrantes, fãs e artistas cujo trabalho foi diretamente influenciado por seu espírito transgressor e cáustico. Miguel Falabella, Cláudia Raia e Pedro Cardoso, por exemplo, revelam como o besteirol - gênero teatral brasileiro por nascimento e excelência - deve muito de sua estrutura aos roteiros nonsense das peças e como Lennie Dale fez dos palcos nacionais um pedaço da Broadway. Algumas integrantes das Frenéticas também dão seu depoimento, lembrando como a personalidade de cada membro da equipe oferecia ao conjunto uma identidade própria e inimitável.

Mas são as entrevistas com os Dzi Croquettes ainda vivos que dão ao documentário o sabor especial que lhe transforma em um espetáculo raro. Inteligentes, sensíveis e cientes de sua importância no cenário teatral brasileiro (e mundial), eles contam histórias saborosas a respeito dos bastidores, enquanto relembram suas relações interpessoais, muitas vezes difíceis e muitas outras fascinantes. Amigos, colegas, amantes e familiares, os atores da companhia viviam sob o signo da liberdade total, inserindo em seu teatro todas as rebeldias e idiossincrasias que faziam deles artistas únicos que afrontavam toda e qualquer regra que porventura considerassem ultrapassadas. Uma festa constante nos palcos e nos bastidores, o grupo acabou por dar origem a um documentário que mantém vivos seus ideais e reflete, com delicadeza e a devida reverência, toda a grandeza de sua coragem. Um filme imprescindível para os amantes do teatro, das artes e da liberdade!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

PROMETHEUS

PROMETHEUS (Prometheus, 2012, 20th Century Fox, 124min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Jon Spaihts, Damon Lindelof, elementos criados por Dan O'Bannon, Ronald Shusett. Fotografia: Dariusz Wolski. Montagem: Pietro Scalia. Música: Marc Streitenfeld. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Sonja Klaus. Produção executiva: Michael Costigan, Michael Ellenberg, Mark Huffam, Damon Lindelof. Produção: David Giler, Walter Hill, Ridley Scott. Elenco: Noomi Rapace, Michael Fassbender, Logan Marshal-Green, Charlize Theron, Guy Pearce, Idris Elba, Rafe Spall, Patrick Wilson. Estreia: 11/4/12

Em 1979, o filme "Alien: o oitavo passageiro" estreou e mudou a forma como o público e a crítica passaram a enxergar a ficção científica no cinema. Referência absoluta no gênero desde então, gerou fortunas com suas sequências - dirigidas por James Cameron (86), David Fincher (92) e Jean-Pierre Jeunet (98) - e nunca deixou de suscitar especulações a respeito de possíveis novas continuações. Demorou mais de três décadas, porém, para que seu diretor original, Ridley Scott, retomasse as rédeas do universo que ajudou a moldar. Para surpresa de muitos, porém, o cineasta inglês não retomou as aventuras da destemida Tenente Ripley, interpretada por Sigourney Weaver nos quatro primeiros capítulos da série: em "Prometheus", ele conta, de maneira elegante mas não menos tensa, fatos acontecidos décadas antes de tudo que foi mostrado no original, em uma jogada ousada e inteligente. Foi parcialmente bem-sucedido: nos EUA, a bilheteria foi apenas razoável (126 milhões de dólares contra o orçamento generoso de 130), mas no resto do mundo, aproveitando-se da fama de uma das marcas mais famosas de Hollywood, chegou perto de 280 milhões. Longe de ser também uma unanimidade entre a crítica, ficou no meio-termo entre aqueles que louvaram a coragem do diretor em fugir do óbvio e aqueles que esperavam muito mais do reencontro do criador com a criatura. Mas, afinal, "Prometheus" é um bom filme ou apenas um mero caça-níqueis de luxo?


Há duas maneiras de se assistir e julgar "Prometheus": como um espectador neófito, a quem todo o universo criado nos quatro primeiros filmes simplesmente inexiste (e a quem portanto tudo é novidade, como um filme qualquer do gênero), ou como um fã da série, ansioso por conhecer as origens de um dos monstros mais longevos da ficção científica cinematográfica (e, consequentemente, muito mais exigente quando se trata do assunto). Para ambas as tribos, o roteiro oferece belos momentos de ação e suspense - tudo orquestrado com a elegância natural de Ridley Scott e um visual estonteante, cortesia da bela fotografia de Dariusz Wolski e da extraordinária direção de arte, concebida a partir do filme original de 1979, mas mostrada ao público do século XXI com todo o requinte que um orçamento generoso e efeitos visuais caprichados podem proporcionar. Porém, ao tentar abraçar esses dois mundos, Scott acabou por ficar no meio do caminho entre a claustrofobia do primeiro capítulo e o senso de espetáculo que James Cameron injetou na continuação de 1986. Coerentemente, em seus dois primeiros atos - em que a atmosfera de tensão sobrepõe-se à ação graficamente violenta - Scott mostra-se mais à vontade em conduzir sua narrativa, dosando com parcimônia momentos mais contemplativos com sequências que dão pistas sobre o que virá pela frente, quando seus personagens finalmente serão obrigados a encarar que não estão sozinhos no universo - e, pior ainda, o estão dividindo com uma espécie não exatamente amistosa.


A trama de "Prometheus" se passa em 2093 - vinte e nove anos antes, portanto, dos acontecimentos do primeiro "Alien". A dupla de arqueologistas Elizabeth Shaw (Noomi Rapace) e Charlie Holloway (Logan Marshall-Green) faz parte da seleta tripulação escolhida pelo milionário Peter Weyland (Guy Pearce sob pesadíssima maquiagem) para explorar vida extra-terrestre, uma vez que foram responsáveis por encontrar, em uma remota ilha da Escócia algum tempo antes, desenhos rupestres que confirmam suas teorias de há recados para a humanidade desde tempos imemoriais. Depois de hibernar por alguns anos, o grupo de cientistas desembarca em um planeta desconhecido, com a missão de encontrar aqueles que acredita-se ser os criadores da raça humana. A diretora da missão, a ambiciosa Meredith Vickers (Charlize Theron), os proíbe de qualquer contato com tais seres e permanece na nave, ao contrário de David (Michael Fassbender), um androide perfeitamente construído para conviver entre os humanos que é o homem de confiança de Weyland. Assim como em "Alien", eles encontram o que não deveriam encontrar, e sobem a bordo de posse da cabeça de um humanoide que encontram no planeta. Durante a investigação que busca mais detalhes sobre o encontrado, uma série de violentos incidentes que vitimam os cientistas fazem com que Vickers e Shaw entrem em conflito sobre como lidar com a situação e de que forma podem sair com vida do planeta - e ao mesmo tempo manter a salvo as descobertas que seus estudos realizaram.

Assim como acontece em todos os episódios da série "Alien", a trama de "Prometheus" gira em torno de um alienígena assassino que vai trucidando cada um dos personagens, normalmente apresentados com pouca profundidade pelo roteiro. No filme de Scott não é diferente. Com exceção da protagonista vivida por Noomi Rapace (a estrela da versão sueca de "Os homens que não amavam as mulheres"), nenhum dos tripulantes da nave é explorado além de um nível superficial pelo roteiro - até mesmo o romance entre Elizabeth e Charlie é tratado sem muito cuidado, apesar da boa química entre os atores. Charlize Theron está bem na pele da ambiciosa Meredith Vickers, mas não tem muito o que fazer além de servir de um empecilho a mais na missão de seus colegas de viagem. Sobra, então, a Michael Fassbender roubar a cena mais uma vez: como o androide David, ele chama a atenção da plateia desde sua primeira cena, transmitindo com perfeição todas as nuances de um personagem que, mesmo não sendo humano, apresenta muito mais complexidades do que se poderia esperar. É Fassbender quem dá o toque de mais sensibilidade de um filme que, apesar de alguns exageros inverossímeis (que tal uma personagem sair correndo depois de uma cesareana?), diverte e impressiona pela qualidade técnica. Não chega a ser um "Alien: o oitavo passageiro" - mas algum dos filmes da série chega?

sábado, 11 de fevereiro de 2017

O MESTRE DOS GÊNIOS

O MESTRE DOS GÊNIOS (Genius, 2016, Desert Wolf Productions/Riverstone Pictures, 104min) Direção: Michael Grandage. Roteiro: John Logan, livro de A. Scott Berg. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Chris Dickens. Música: Adam Cork. Figurino: Jane Petrie. Direção de arte/cenários: Mark Digby/Michelle Day. Produção executiva: James J. Bagley, A. Scott Berg, Tim Bevan, Nik Bower, Tim Christian, Ivan Dunleavy, Arielle Tepper Madover, Deepak Nayar. Produção: James Bierman, Michael Grandage, John Logan. Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Guy Pearce, Laura Linney, Dominic West, Vanessa Kirby. Estreia:16/02/16 (Festival de Berlim) 

Foi em 1983 que John Logan leu o livro "Max Perkins: editor of genius", de A. Scott Berg, que foi o vencedor National Book Award de 1978. De lá até 2016, quando finalmente viu sua adaptação ganhar as telas de cinema, Logan tornou-se um dos roteiristas mais conceituados de Hollywood, com três indicações ao Oscar no currículo ("Gladiador", "O aviador" e "A invenção de Hugo Cabret") e crédito em duas aventuras de James Bond ("007 - Operação Skyfall" e "007 contra Spectre"). Seu prestígio, no entanto, não ajudou muito a alavancar "O mestre dos gênios", que, mesmo contando com um elenco de vencedores e indicados ao Oscar e falando de alguns dos maiores escritores americanos do século XX, naufragou fragorosamente nas bilheterias e sequer foi lembrado pelas cerimônias de premiação - o mais perto que chegou disso foi concorrer ao Urso de Ouro no Festival de Berlim. Tal resultado não deixa de ser um reflexo da qualidade do filme de estreia do ator Michael Grandage como diretor: a biografia de Max Perkins, editor de nomes consagrados da literatura, como Thomas Wolfe, Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, é apenas correta, passando bem longe de ser uma experiência memorável.

Na pele de um Colin Firth contido e sem cacoetes, Max Perkins surge como um visionário editor da celebrada Scribners, capaz de enxergar nas caudalosas páginas do novato Thomas Wolfe (Jude Law substituindo Michael Fassbender e saindo-se bastante bem) um provável sucesso de crítica. Wolfe, por sua vez, é um gênio excêntrico e dotado de todas as características típicas de pessoas como ele: quase arrogante, inteligente e capaz de escrever milhares de páginas apenas para descrever um objeto. Casado com Aline Bernstein (Nicole Kidman), uma mulher que o apoia mas se ressente de ser frequentemente deixada em segundo plano em relação à sua arte, o autor de obras elogiadas mas difíceis como "Olhe para casa, anjo" e "Do tempo e do rio" (ambos inéditos no Brasil) encontra em Law um retrato não exatamente fiel fisicamente, mas energético e fascinante a ponto de eclipsar seus colegas de cena. A relação entre ele e Perkins, um homem de família discreto e dedicado à sua profissão, é mostrada com delicadeza por Grandage - especialmente quando o filme lança luz a seus maiores desafios: cortar os excessos do romancista, tornando palatáveis suas obras escandalosamente prolixas. De certa forma, Perkins era quase um coautor dos livros de Wolfe, o que lhes alterava a relação puramente comercial em algo muito mais emocional e fraterno. Assim, o escritor frequentava a casa do editor, convivia com sua esposa, Louise (Laura Linney) e os filhos e o levava para suas farras noturnas.


Mas nem só da amizade entre Wolfe e Perkins trata o roteiro de "O mestre dos gênios". De forma ligeira e quase superficial, entram em cena, para deleite dos fãs de literatura, outros nomes de suma importância para o mundo das letras do século XX. Guy Pearce vive um decadente e sofrido F. Scott Fitzgerald, já na época em que sua esposa, Zelda (Vanessa Kirby), passava por graves crises depressivas e ele mesmo sentia-se incapaz de escrever qualquer obra que lembrasse vagamente seus melhores trabalhos. Ernest Hemingway também surge, interpretado com precisão por Dominic West, que empresta ao escritor ares de sujeito mundano, mais interessado em pescarias do que em máquinas de escrever. Tais respiros, mais do que simplesmente tirar um pouco o foco da amizade entre os protagonistas, serve também para localizar o espectador em um período específico do século e desmistificar alguns dos maiores autores da história, oferecendo a eles uma aura mais humana e menos inalcançável. O artifício funciona: Guy Pearce está particularmente bem como um Fitzgerald cansado e desiludido e Dominic West, mesmo em uma única cena, dá um belo vislumbre da personalidade de Hemingway, assim como Corey Stoll fez com maestria em "Meia-noite em Paris", de Woody Allen. São esses momentos, fora do arco narrativo principal de "O mestre dos gênios" que, paradoxalmente, fazem dele um filme interessante e o salvam do lugar-comum.

Não deixa de ser surpreendente, no entanto, que, mesmo com um profissional experiente como John Logan, seja justamente o roteiro um dos principais problemas do filme de Grandage. Sem conseguir imprimir em seus protagonistas o grau de empatia suficiente para conquistar o espectador, a história acaba por tentar impor-se mesmo sem ter força para isso. Escorando-se basicamente em um relacionamento profissional/fraternal sem maiores lances dramáticos, a trama acaba por arrastar-se por longos 104 minutos, tentando encontrar atrativos além do elenco excepcional para cativar a atenção da plateia. É uma produção caprichada, com uma reconstituição de época cuidadosa e personagens lendários vividos por atores de primeira linha, mas esbarra em uma falta absoluta do que contar em seu terço final. É um desperdício, mas mesmo com seus pecados, ainda é um filme que pode agradar a quem procura conhecer um pouco mais de seus autores favoritos. Uma pena que até mesmo nesse ponto é superficial demais para acrescentar algo a mais na carreira dos envolvidos.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O CORPO

O CORPO (El cuerpo, 2012, Antena 3 Films/Canal + España, 108min) Direção: Orion Paulo. Roteiro: Orion Paulo, Lara Sendim. Fotografia: Oscar Faura. Montagem: Joan Manel Vilaseca. Música: Sergio Moure de Oteyza. Figurino: Maria Reyes. Direção de arte/cenários: Balter Gallart/Nuria Muni. Produção executiva: Pepes Torrescusa. Produção: Mercedes Gamero, Mikel Lejarza, Joaquín Padró, Mar Targarona. Elenco: José Coronado, Belén Rueda, Hugo Silva, Aura Garrido, Miquel Gelabert. Estreia: 04/10/12

Na primeira cena, um homem corre apavorado, sob uma chuva torrencial, e é atropelado na estrada, indo parar no hospital, em coma com diversas fraturas graves que o impedem de revelar às autoridades o motivo pelo qual ele abandonou seu posto como vigia de um necrotério de forma tão atribulada. Chamado para investigar o caso, o detetive Jaime Peña (José Coronado) descobre, logo que chega ao local, outro fato bastante estranho: o desaparecimento do corpo da empresária Mayka Villaverde Freire (Belén Rueda), recentemente vítima de um ataque cardíaco fatal. O necrotério se localiza perto de um bosque fechado, chove abundantemente e a sala onde ficam os cadáveres está trancado por dentro, o que deixa tudo ainda mais nebuloso. Sem saber por onde começar a investigação, Jaime chama o viúvo, Álex Ulloa Marcos (Hugo Silva) - e assim tem início um dos mais engenhosos e inteligentes filmes de suspense realizados pelo cinema espanhol. Dirigido e coescrito pelo jovem Oriol Paulo, "O corpo" é um daqueles filmes de prender a atenção da primeira à última cena - e deixar o espectador abismado com uma reviravolta final consistente e verossímil. Graças a um roteiro enxuto que equilibra sustos e personagens bem construídos, o público se vê mergulhado em uma trama onde nada é exatamente o que parece - e absolutamente qualquer diálogo tem importância fundamental no desenvolvimento do enredo.

A chegada de Álex ao necrotério - onde se vê à disposição do interrogatório de Jaime, desconfiado por alguma razão das declarações do viúvo - dá o pontapé inicial para um jogo de gato e rato dos mais instigantes. Jaime é um personagem rico em nuances: viúvo e com uma relação complicada com a filha que vive em Berlim, ele não consegue levar a vida adiante de maneira saudável, e vê no trabalho uma válvula de escape para seu drama particular. Certo de que Álex sabe mais do que aparenta em relação ao sumiço do corpo da esposa, ele não se permite falhar em sua caça à verdade - e o jovem, casado com uma mulher mais velha e poderosa, dá todos os motivos do mundo para que o veterano policial desconfie de suas atitudes. Conforme a ação avança, a plateia é informada de que ele vive um tórrido romance com Carla Miller (Aura Garrido) - e que tal caso extraconjugal pode ter relação com a morte de Mayka. Qual a conexão entre todos esses elementos é o grande trunfo do roteiro, que encontra na direção certeira de Paulo a tradução mais adequada. Como um herdeiro de Alfred Hitchcock - e qual diretor de filmes de suspense não o é? - o cineasta constrói uma teia de pistas falsas, informações desencontradas e personagens suspeitos para brindar a plateia com um entretenimento de primeira qualidade, que em nada fica a dever a produções hollywoodianas muito mais ambiciosas.


É óbvio, porém, que o elenco ajuda bastante. Belén Rueda desfila sua classe e charme na pele da sedutora milionária Mayka Villaverde, sempre mesclando doçura, paixão e um tom de mistério; Hugo Silva está à vontade como o pouco confiável Álex, um homem que pode ser tanto culpado quanto vítima; e José Coronado é a terceira peça fundamental do trio de protagonistas, um homem despedaçado por uma tragédia familiar que vê em sua obsessão em provar a culpa de Álex uma válvula de escape que pode levá-lo em direção a um caminho sem volta, perigoso e chocante. Oriol Paulo conduz seus atores com extrema precisão, arrancando de cada um deles o máximo de tensão com o mínimo de informações, desnorteando o espectador até os últimos minutos, quando o quebra-cabeças finalmente faz sentido - não de forma artificial como acontece na maioria dos filmes de trama preguiçosa, mas organicamente, com as pontas sendo amarradas com uma maestria digna de Agatha Christie. Como em uma peça de teatro milimetricamente arquitetada, os atores forjam uma sintonia que envolve o público até que ele esteja totalmente entregue às viradas da trama - no que são muito auxiliados pela trilha sonora discreta e eficiente e pela edição ágil na medida certa: não apressa os acontecimentos nem tampouco abusa de cenas longas e explicativas.

Uma gratíssima surpresa para fãs do gênero, "O corpo" é um filme que pode ser visto e revisto diversas vezes sem que nunca perca sua qualidade dramática. Mesmo que seu final já seja conhecido, o público pode acompanhar suas diversas camadas sempre descobrindo novos detalhes e aplaudindo a conjunção perfeita entre direção, elenco, roteiro e técnica. Em uma filmografia tão centrada em dramas e comédias como a espanhola, não deixa de ser um respiro louvável e uma demonstração de extrema inteligência e criatividade. Um filme imperdível!

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

O MÁGICO DE OZ

O MÁGICO DE OZ (The wizard of Oz, 1939, MGM, 102min) Direção: Victor Fleming. Roteiro: Noel Langley, Florence Ryerson, Edgar Allan Woolf, adaptação de Noel Langley, romance de L. Frank Baum. Fotografia: Harold Rosson. Montagem: Blanche Sewell. Figurino: Adrian. Direção de arte/cenários: Cedric Gibbons/Edwin B. Willis. Produção: Mervyn LeRoy. Elenco: Judy Garland, Frank Morgan, Ray Bolger, Bert Lahr, Jack Haley, Billie Burke, Margaret Hamilton. Estreia: 15/8/39

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Fotografia (Cores), Trilha Sonora Original, Canção Original ("Over the rainbow"), Direção de Arte, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Canção ("Over the rainbow") 

Se existe um filme que pode ser considerado parte do imaginário coletivo da humanidade, esse filme é "O mágico de Oz". Mesmo quem nunca assistiu às aventuras de Dorothy em busca do caminho de volta ao lar depois de ser afastada da família em consequência de um tornado conhece sua história, tem noção de seus personagens icônicos (Homem de Lata, Espantalho, Leão Covarde, Bruxa Má do Oeste) e já ouviu a clássica canção "Over the rainbow", imortalizada na voz de sua atriz principal Judy Garland. Lançado em 1939 - ano de ouro que também marcou a estreia de "...E o vento levou", "O morro dos ventos uivantes", "Ninotchka" e "No tempo das diligências" - o filme de Victor Fleming tornou-se eterno no coração dos cinéfilos a despeito de sua temática aparentemente infantil justamente por sua alta dose de inocência e sensibilidade. Não à toa, em um aviso logo no início da projeção, os produtores dedicam à história a todos aqueles que se mantém jovens de coração - um toque que certamente agradaria ao autor do romance que deu origem ao roteiro, L. Frank Baum.

Publicado em 1900 e seguido por nada menos que dezesseis continuações, "O mágico de Oz" chegou às telas de cinema depois de exaustivas filmagens que duraram cinco meses de árdua labuta e muitas dúvidas acerca de suas possibilidades comerciais. Apesar de já ser um sucesso no teatro, o livro de Baum - cujos direitos foram comprados pela então astronômica quantia de 75 mil dólares - demandou um trabalho hercúleo de quatorze (!!) roteiristas e cinco diretores, até que o resultado final (escrito por Noel Langley, Florence Ryerson e Edgar Allan Woolf sob uma adaptação bem menos sombria do material original) agradasse à MGM e Victor Fleming (que também assinou "...E o vento levou", no mesmo ano, e levou um Oscar por isso). Situações pouco palatáveis à plateia infantojuvenil foram limadas do texto final e um tom menos sinistro foi providenciado, com a inclusão de algumas canções (como a tão falada "Over the rainbow", que por pouco não foi eliminada do corte final) e um visual colorido realizado em Technicolor quase a ponto de ferir a retina. Possíveis implicações sociopolíticas também foram disfarçadas - segundo alguns críticos tudo na história tinha viés de crítica à sociedade capitalista, desde o americano médio (representado pela garota típica do meio-oeste) até a tecnologia (através do mágico), passando pelos fazendeiros da época (o espantalho sem cérebro), a indústria (o homem de lata sem coração) e os políticos (na figura do leão covarde) - e, com a impossibilidade de contar com a maior estrela-mirim da época, Shirley Temple, o estúdio do leão acabou contratando a adolescente Judy Garland para o papel principal, torcendo para que seus 16 anos de idade parecessem bem menos na tela. Talvez mérito da conjunção astral, talvez pelo talento dos envolvidos ou talvez por ser o filme certo na hora certa, "O mágico de Oz" tornou-se, quase imediatamente, um clássico dos mais amados, idolatrado por fãs de diversas gerações.


Sua estreia na televisão americana, por exemplo, em 1956, foi assistida por 44 milhões de telespectadores, o que demonstrou, sem margem para qualquer dúvida, a perenidade do filme, já então com quase 20 anos de idade. A canção "Over the rainbow" acompanhou Judy Garland por toda a sua carreira, tornando-se um clássico absoluto que sobreviveu até mesmo à sua morte - coincidência ou não, no dia em que isso aconteceu, em 1969, um tornado pegou o Kansas de surpresa, como uma última (e nada sutil) homenagem àquela que seria lembrada eternamente como a doce Dorothy, a despeito de uma respeitável carreira posterior, como cantora e atriz. Nada mal para quem pegou o papel mesmo sendo considerada velha demais e sobreviveu à constante troca de diretores que tomou conta das filmagens. Se Victor Fleming foi quem recebeu crédito como o diretor oficial, outros quatro nomes também estiveram ligados ao filme, em maior ou menor nível. Fleming realmente comandou a maior parte da missão antes de dedicar-se a "... E o vento levou", mas dividiu o trabalho com Richard Thorpe (cujas cenas ficaram totalmente de fora da versão final), o admirado George Cukor (que não filmou nenhuma sequência, mas foi responsável por mudanças no visual de Judy Garland), King Vidor (responsável pelas cenas em preto-e-branco na fazenda do Kansas, incluindo a famosa aparição da canção-tema) e o produtor Melvin LeRoy, que assinou algumas pequenas cenas de transição. Apesar de tantas mãos, no entanto, em nenhum momento "O mágico de Oz" parece um filme sem personalidade: ao contrário, é uma obra com uma surpreendente unidade visual e um brilhantismo técnico e dramático que o mantém como um dos mais adorados e queridos filmes de todos os tempos - algo que nem mesmo aberrações como "O mágico inesquecível", com Michael Jackson e Diana Ross, conseguiram estragar.

A história, para quem não conhece (se é que alguém não conhece) é simples, delicada e lúdica. Dorothy (Judy Garland) é uma menina doce e sonhadora que vive com os pais em uma fazenda do interior do Kansas. Um dia, um tornado a leva para a desconhecida Terra de Oz, acompanhada de seu fiel cãozinho Totó. Mesmo encantada com o colorido do lugar e seus habitantes exóticos, ela sonha em voltar para casa, mas para isso precisa pedir o auxílio do misterioso mágico do lugar, que vive isolado em uma casa localizada no final de uma estrada de ladrilhos amarelos, a famosa Cidade das Esmeraldas. Para chegar lá, ela conta com a companhia de três novos amigos, todos com um desejo a ser realizado pelo mágico: um leão covarde (Bert Lahr) que precisa de coragem, um homem de lata (Jack Haley) que ambiciona ser dono de um coração, e um espantalho (Ray Bolger) que busca um cérebro. Além disso, Dorothy precisa também se livrar da perseguição da Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton), que deseja vingar a morte da irmã, causada pela queda da casa da menina sobre ela. No final do caminho fica claro, mais uma vez, que a viagem importa mais do que o destino, e a garota acaba por aprender uma valiosa lição de vida, resumida da famosa "Não há lugar como nossa casa!".

Um clássico na mais ampla acepção do termo, "O mágico de Oz" é, sem dúvida, um dos filmes imprescindíveis realizados pela era dourada de Hollywood, uma obra que resiste ao tempo de forma admirável e continua a encantar crianças e adultos. Não à toa, inspirou até mesmo discos de rock progressivo - o álbum "The dark side of the moon", da banda Pink Floyd, tem seu ritmo totalmente ditado pelas cenas do filme, em uma das homenagens mais criativas já feitas à uma produção cinematográfica da história. Não é para qualquer um, mas definitivamente, "O mágico de Oz" não é um filme qualquer.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

NERVE: UM JOGO SEM REGRAS

NERVE: UM JOGO SEM REGRAS (Nerve, 2016, Lionsgate, 96min) Direção: Henry Joost, Ariel Schulman. Roteiro: Jessica Sharzer, romance de Jeanne Ryan. Fotografia: Michael Simmonds. Montagem: Madeleine Gavin, Jeff McEvoy. Música: Rob Simonsen. Figurino: Melissa Vargas. Direção de arte/cenários: Chris Trujillo/Kara Zeigon. Produção executiva: Qiuyun Long, Jeanne Ryan. Produção: Anthony Katagas, Allison Shearmur. Elenco: Emma Roberts, Dave Franco, Emilu Meade, Miles Heizer, Juliette Lewis, Kimiko Glen, Marc John Jefferies. Estreia: 12/7/16

Uma sociedade consumida pelo desejo ávido de fama, dinheiro e bajulação não tem como evitar que seus jovens acabem por buscar todos esses objetivos da maneira mais fácil e/ou rápida. Retratos de gerações vazias e desesperadas por algum sentido (qualquer um) já foram mostrados pelo cinema por diversas vezes, desde os rebeldes sem causa de "O selvagem" (53), com Marlon Brando e "Juventude transviada" (54), com James Dean, até os niilistas viciados em heroína de um dos maiores cults dos anos 90, "Trainspotting: sem limites", com Ewan McGregor e dirigido pelo oscarizado Danny Boyle. Unindo essa angústia existencial com a irresponsabilidade de uma geração escravizada pela Internet e pelas redes sociais - e suas consequências frequentemente trágicas - surgiu "Nerve: um jogo sem regras", um romance escrito por Jeanne Ryan que, assim como a bem-sucedida tetralogia "Jogos vorazes" parte de uma fictícia e quase macabra série de regras para criticar, sob forma de entretenimento ligeiro, a falta de perspectivas e limites dos viciados em tecnologia e popularidade instantânea. Sua versão para as telas de cinema, dirigida pela dupla Henry Joost e Ariel Schulman - também por trás dos capítulos 3 e 4 da franquia "Atividade paranormal" - pode não ter a contundência de um novo clássico, mas consegue uma façanha e tanto: diverte enquanto faz pensar.

Rápido e eficiente, "Nerve" é um filme adolescente, juvenil, que beira a superficialidade em seus questionamentos e soluções dramáticas, mas por incrível que pareça, funciona muito bem, desde que a expectativa do espectador não seja muito elevada. Com um visual modernoso, uma trilha sonora adequada e uma edição ágil na medida certa para quem não tem paciência com sequências muito longas - ou seja, a maior parte de seu público-alvo - o filme de Joost e Schulman é o típico exemplo de produção que, sem campanhas milionárias de marketing ou orçamentos gigantescos, acaba por conquistar uma bilheteria respeitável graças unicamente à propaganda boca-a-boca: mesmo sem grandes astros no elenco e sem a chancela de materiais já consagrados em outras mídias, atingiu uma bilheteria mundial de mais de 80 milhões de dólares - quatro vezes mais do que seu custo estimado (que, por sua vez, é o equivalente ao salário POR FILME de Julia Roberts, a tia de sua atriz principal, Emma). Na pele da protagonista Vee, a jovem Emma pela primeira vez demonstra carisma e talento suficientes para segurar um papel principal - e com uma ótima química com seu parceiro de cena, Dave Franco (irmão de James), é um dos destaques da produção, disfarçando algumas improbabilidades do roteiro e facilitando a identificação da plateia com a personagem.


Vee é uma jovem estudante do ensino médio que precisa ganhar dinheiro se quiser frequentar a faculdade de Artes da qual sonha fazer parte. Tímida e romântica, ela mora com a mãe, Nancy (Juliette Lewis) e é incapaz até mesmo de declarar-se para o rapaz por quem é apaixonada, o jogador de futebol J.P. (Brian Marc). Fotógrafa por vocação, ela se contenta em ser amiga da extravagante Sydney (Emily Meade), que não mede esforços para chamar a atenção e ser considerada a garota mais popular da turma. Seu esforço é tanto que ela é uma das mais famosas participantes de um jogo online chamado Nerve, em que aqueles que estão inscritos são desafiados a praticarem atos cada vez mais ousados diante das câmeras com o objetivo de acumularem dinheiro e seguidores. De bobagens como cantar diante de estranhos até ações mais pesadas como pendurar-se a centenas de metros do chão, os candidatos ao prêmio final do jogo vão sendo eliminados conforme não conseguem cumprir o que foi ordenado ou desistem de continuar. Abalada com seu status de espectadora passiva do mundo a seu redor, Vee resolve então entrar no jogo, mesmo contra os conselhos de seu melhor amigo, Tommy (Miles Heizer). Sua entrada no arriscado universo de Nerve coincide com sua parceria com Ian (Dave Franco), que também faz parte da brincadeira e com quem ela passa a desempenhar uma sucessão de tarefas que ao mesmo tempo lhe tornam famosa e admirada pelos espectadores e em constante possibilidade de falhar - especialmente quando Tommy descobre que Ian pode não ser quem eles acham.

Mesmo que seu desfecho seja abrupto, inverossímil e até anti-climático, é inegável que "Nerve" é um filme que sabe como entreter sua audiência. Tem um ritmo ágil, personagens carismáticos e sabe manter o interesse da plateia até o final, quando opta por uma saída fácil, que esvazia a força que a narrativa vinha imprimindo até então. Desperdiçando a presença de Juliette Lewis - que pouco aparece e é subaproveitada em um papel ingrato - e abraçando o óbvio final feliz, o roteiro ameniza a potência de sua denúncia, transformando o que poderia ser um belo discurso sobre os perigos da celebridade fácil em apenas mais uma (boa) aventura, perfeita para passar o tempo, mas sem muitas chances de fixar-se na memória do público logo após seus créditos de encerramento. É divertido, é atual e tem personalidade visual, mas não ultrapassa os limites que se autoimpõe como entretenimento despretensioso. Vale uma sessão, desde que não se tenham grandes expectativas a seu respeito.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

NOCAUTE

NOCAUTE (Southpaw, 2015, Escape Artists/Fuqua Films, 124min) Direção: Antoine Fuqua. Roteiro: Kurt Sutter. Fotografia: Mauro Fiore. Montagem: John Refoua. Música: James Horner. Figurino: David C. Robinson. Direção de arte/cenários: Derek R. Hill/Melissa Lombardo. Produção executiva: David Bloomfield, Cary Cheng, Jonathan Garrison, Stuart Parr, David Ranes, Paul Rosenberg, David Schiff, Dylan Sellers, Kurt Sutter, Ezra Swerdlow, Bob Weinstein, Harvey Weinstein, Gillian Zhao. Produção: Todd Black, Jason Blumenthal, Antoine Fuqua, Alan Riche, Peter Riche, Steve Tisch, Jerry Ye. Elenco: Jake Gyllenhaal, Forest Whitaker, Rachel McAdams, Oona Laurence, 50 Cent, Skylan Brooks, Naomie Harris, Victor Ortiz. Estreia: 15/6/15 (Festival de Xangai)

A princípio, a ideia era fazer uma espécie de continuação de "8 mile: rua das ilusões" (2002), com o cantor Eminem reprisando seu papel, dessa vez com uma trama centrada no universo das lutas de boxe. Com o tempo - e a desistência do rapper, que preferiu dedicar-se à carreira musical e abandonar parcialmente o projeto, assinando apenas como produtor executivo da trilha sonora - a história foi sendo modificada, de acordo com as regras de Hollywood e o interesse de atores com razoável poder de atrair as plateias. Antes que Jake Gyllenhaal assumisse a protagonização sob a direção de Antoine Fuqua, por exemplo, nomes como Ryan Gosling, Bradley Cooper e Jeremy Renner (todos potencialmente interessantes sob o ponto de vista comercial e com indicações ao Oscar para comprovar seus méritos artísticos) foram cogitados para enfeitar o cartaz, em uma tentativa em conciliar uma bilheteria polpuda e possíveis indicações à estatueta dourada. Quando finalmente o filme saiu, com Gyllenhaal no papel central, o primeiro objetivo foi atingido em parte, com uma renda de pouco mais de 50 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico (EUA e Canadá) e quase 90 ao redor do mundo. Já o segundo foi uma decepção: apesar dos rumores que davam como bastante provável a lembrança de Gyllenhaal entre os candidatos ao Oscar, a Academia simplesmente ignorou seu belo trabalho, frustrando fãs e produtores.

A esnobada em Gyllenhaal - indicado ao prêmio de coadjuvante em 2006, por "O segredo de Brokeback Mountain" - não deixou de ser injusta. Ator dedicado e minucioso em suas composições, ele é o pilar de um filme que, apesar da sinceridade impressa em cada cena, jamais consegue escapar das armadilhas de um roteiro clichê e bastante previsível. Antoine Fuqua, o diretor, tem no currículo filmes corretos mas nunca brilhantes - como "Dia de treinamento" (2001), que deu o Oscar a Denzel Washington - e novamente entrega um produto bem embalado, visualmente atraente e de fácil comunicação com a plateia, mas sem personalidade. Da fotografia à edição, passando pela trilha sonora pesada e pela caracterização que deixa Gyllenhaal irreconhecível em determinados momentos, tudo funciona como um relógio. Porém, é inegável que todo o esforço esbarra em uma trama simplista, que, se consegue emocionar, é mérito do talento de seus intérpretes, excelentes atores dando vida a personagens que apenas ocasionalmente ultrapassam a esfera do superficial. Com apenas uma grande surpresa na narrativa - ainda em seu primeiro ato - e uma sucessão de sequências que apesar de bem realizadas não acrescentam nada ao gênero, "Nocaute" é um entretenimento competente e tecnicamente impecável, mas está longe de ser o novo clássico que talvez almejasse ser.


Um esporte querido pelo cinema, o boxe foi responsável por alguns dos mais premiados e queridos filmes realizados por Hollywood, como "Rocky, um lutador", Oscar de filme e direção em 1977, "Touro indomável" (80) - estatueta de melhor ator para Robert DeNiro - e "Menina de ouro" (2004), que deu o segundo Oscar tanto a Clint Eastwood (direção) quanto à Hillary Swank (atriz), além de faturado o prêmio de melhor filme do ano em cima de "O aviador", de Martin Scorsese. O roteiro de "Nocaute" se utiliza de elementos de todos eles (e de vários outros de temática semelhante) para costurar uma história de amor, vingança e superação, sendo o esporte a moldura perfeita para tal, com sua mistura de decadência e glamour mescladas em doses exatas pelo cineasta, que não hesita em fazer sua câmera transitar pelos eventos milionários das redes esportivas de televisão e por academias baratas, refúgio dos menos favorecidos pela sorte. O protagonista, Billy Hope, é um daqueles que tem a possibilidade de experimentar os dois mundos - e sua jornada, graças ao talento de Jake Gyllenhaal, se torna interessante a despeito da falta de novidade que ela apresenta.

Quando o filme começa, Hope é um lutador que está no auge da carreira, vencendo lutas, sendo adulado por imprensa e amigos de ocasião e vivendo um casamento feliz com a bela Maureen (Rachel McAdams), a quem conheceu em um abrigo para crianças sem lar e que hoje administra sua carreira com um misto de rigidez e carinho. O romance deles foi abençoado com uma filha inteligente e amorosa, Leila (Oona Laurence), e o que parecia um sonho dourado torna-se bruscamente um pesadelo quando uma tragédia inesperada se abate sobre a família e faz com que o corajoso e bem-sucedido atleta se veja diante de um desafio cruel e mais pesado que poderia imaginar: juntar os cacos do que ainda restou e tentar uma volta por cima, com a ajuda do veterano Tick Wills (Forest Whitaker fazendo o possível para extrair algo de novo de um personagem dos mais batidos). É admirável como Antoine Fuqua consegue contar sua história (direta, simples, quase banal) sem perder o interesse da plateia diante de uma série de lugares-comuns: com uma edição ágil, momentos dramáticos estrategicamente distribuídos pela narrativa e atuações poderosas, ele consegue facilmente enganar que seu filme tem mais substância do que na verdade tem. É um mérito, mas questionável, uma vez que, assim que a sessão acaba, é bem provável que o espectador esqueça boa parte do que viu. Para alguns sua falta de personalidade como cineasta - e do filme em si como obra de arte - talvez não incomode, já que é entretenimento de qualidade. Mas não resta dúvidas de que um bocado de ousadia e criatividade teria sido providencial para um sucesso maior. Em todo caso, é um passatempo honesto e apresenta uma atuação monstruosa (no bom sentido) de Jake Gyllenhaal, o que é mais do que muitos outros filmes bem mais ambiciosos conseguem.