sexta-feira, 21 de abril de 2017

O HOMEM DE GELO

O HOMEM DE GELO (The iceman, 2012, Millenium Films, 106min) Direção: Ariel Vromen. Roteiro: Ariel Vromen, Morgan Land, livro de Anthony Bruno, documentário "The Iceman Tapes: Conversations with a killer", de Jim Thebaut. Fotografia: Bobby Bukowski. Montagem: Danny Rafic. Música: Haim Mazar. Figurino: Donna Zakowska. Direção de arte/cenários: Nathan Amondson/Teresa Visinaire. Produção executiva: Rene Besson, Anthony Bruno, Boaz Davidson, Danny Dimbort, Mark Gill, Lati Grobman, Laura Rister, Trevor Short, Jim Thebaut, John Thompson. Produção: Ehud Bleiberg, Avi Lerner, Ariel Vromen. Elenco: Michael Shannon, Winona Ryder, Ray Liotta, Chris Evans, David Schwimmer, James Franco, Stephen Dorff. Estreia: 30/8/12 (Festival de Veneza)

Michael Shannon é um monstro de ator (no bom sentido): intenso, dedicado e frequentemente requisitado para papéis que exigem imponência ou certo grau de ameaça - graças a seu olhar penetrante e sua vaga semelhança física com Christopher Walken, por muito tempo o malucão preferido de Hollywood -, Shannon não poderia ter sido a melhor escolha para interpretar Richard Kuklinski, um dos assassinos mais conhecidos da história dos EUA, que por trás da fachada de homem de família respeitável, foi responsável por cerca de 200 mortes, a maioria delas encomendadas pelas cinco famílias mafiosas de Nova York. Dono do apelido de Homem de Gelo, por seu costume de congelar as vítimas por um tempo antes de desovar o corpo (dificultando assim a definição exata da data de suas mortes), Kuklinski foi tema de um documentário da HBO chamado "America undercover: The iceman tapes - conversations with a killer" e um livro escrito por Anthony Bruno. As duas obras acabaram por ser a base de "O homem de gelo", longa-metragem dirigido por Ariel Vromen que, contando com a atuação gigantesca de Shannon, acompanha a trajetória do protagonista desde seu início na vida do crime até sua prisão, em 1986. Narrado de forma convencional e com um roteiro que não explora a contento todas as possibilidades oferecidas pela história, o filme se vale do talento de seu ator principal e do elenco coadjuvante para manter a atenção do público até o final - ainda que nem mesmo seu clímax chegue a ser empolgante como poderia.

Sem explorar o passado traumático e cercado de violência de seu personagem central, o que certamente explicaria boa parte de sua personalidade calculista e quase apática em relação aos crimes que comete, "O homem de gelo" concentra-se basicamente na transformação de um homem comum em um dos maiores assassinos dos EUA. De dublador de filmes pornográficos a matador de aluguel, Kuklinski praticamente tinha uma vida dupla: de dia, era um respeitável pai de família, casado com a doce Deborah (Winona Ryder substituindo Maggie Gyllenhaal, que saiu do filme devido à gravidez) e pai de duas meninas; em horário comercial, um criminoso frio e implacável que trabalha para o perigoso Roy Demeo (Ray Liotta em papel oferecido a Benicio Del Toro). Sem importar-se muito em detalhar as mortes cometidas por Kuklinski, o roteiro vai contando sua história sem pressa, até chegar o momento em que o protagonista entra em rota de colisão com Demeo: trabalhando por conta própria ao lado do excêntrico Robert Pronge (Chris Evans, ótimo), ele vê a si e a família ameaçados, o que o obriga a entrar em um período de tensão e paranoia crescentes - especialmente porque ninguém de suas relações pessoais sabe a respeito de sua verdadeira profissão.


Dotado de uma estrutura narrativa simples e sem apelar para a violência excessiva - apesar do tema e do personagem central de certa forma exigirem tal opção -, "O homem de gelo" parece mais um telefilme do que uma produção para o cinema. Apesar do elenco talentoso, sua falta de ousadia em contar uma história tão repleta de possibilidades incomoda a um público já acostumado com o gênero e que busca algo mais do que um roteiro quadradinho e que deixa de lado questões importantes - como o fato de Kuklinski ser também violento em casa, frequentemente espancando a esposa. Até mesmo a razão de seu apelido (o congelamento de suas vítimas) é mencionado apenas brevemente, quase como se fosse algo sem importância. A direção de Ariel Vromen - responsável por produções da Netflix, Warner e Lionsgate, entre outros - não empolga em nenhum momento, nem mesmo no terço final, quando finalmente Kuklinski se vê encurralado pelas consequências de seus atos e precisa lidar com a pressão de estar no papel de possível vítima. Michael Shannon brilha em cada cena, mas não consegue escapar das armadilhas de um roteiro pouco inspirado.

No final das contas, "O homem de gelo" é um filme apenas correto, com poucos momentos memoráveis e que deixa a sensação de que poderia ter sido um grande trabalho caso não tivesse optado pelo convencionalismo excessivo. Uma pena que uma história tão rica de possibilidades tenha ficado no meio-termo adotado por seu diretor. Está longe de ser um filme ruim, mas tampouco é um filme que mereça destaque - exceto talvez pelo belo desempenho de Michael Shannon, que consegue ser melhor que o filme em si. Segura bem uma tarde chuvosa, mas não marca a vida de ninguém da plateia - quase uma decepção em se tratando do tema e do elenco.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A GRANDE APOSTA

A GRANDE APOSTA (The big short, 2015, Plan B Entertainment/Regency Enterprises, 130min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph, livro de Michael Lewis. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Hank Corwin. Música: Nicholas Britell. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Clayton Hartley/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Kevin Messick, Louise Rosner-Meyer. Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Arnon Milchan, Brad Pitt. Elenco: Ryan Gosling, Steve Carrell, Christian Bale, Brad Pitt, Marisa Tomei, Tracy Letts, Rafe Spall, Melissa Leo, Finn Wittrock. Estreia: 12/11/15

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Adam McKay), Ator Coadjuvante (Christian Bale), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado 

Subprime. Trenchs. Bolha imobiliária. Termos como esses, comuns a quem lida com o mercado financeiro mas totalmente desconhecidos de 95% da população mundial, são frequentemente mencionados em "A grande aposta", vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado de 2015, batendo nomes fortes, como "Perdido em Marte", de Ridley Scott, e "Carol", de Todd Haynes. Dirigido pelo mesmo Adam McKay de "O Âncora" (2005) e "Tudo por um furo" (2013), e estrelado por astros do porte de Brad Pitt, Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carrell, o filme, baseado em uma história real, caiu nas graças da crítica e chegou a concorrer a outras quatro estatuetas, entre elas melhor filme e direção. Tanto sucesso (inclusive de bilheteria, já que ultrapassou os 70 milhões de dólares no mercado doméstico) não deixa de ser estranho e surpreendente: apesar do elenco milionário e das tentativas de familiarizar a plateia com seu palavreado técnico através de inserções cômicas e didáticas, "A grande aposta" não deixa de ser um filme muito complexo para os não-iniciados (e até para aqueles mais ou menos interessados no assunto). Como cinema é muito bom (bem editado, ágil, inteligente, com ótimos atores e uma direção precisa), mas falha em sua principal missão: se fazer compreender completamente.

Talvez seja exagero afirmar que é preciso um conhecimento prévio de economia para melhor aproveitar todos os detalhes de "A grande aposta", mas é fato que inúmeros de seus diálogos são repletos de jargões e conceitos simplesmente complicados demais para o padrão médio do público. A trama - dividida em vários núcleos cuja intersecção é justamente a grande crise imobiliária de 2005, que arruinou milhares de americanos e causou uma onda de demissões, falências e prisões - apresenta personagens pouco simpáticos, quase todos francamente amorais e/ou meramente gananciosos, o que dificulta ainda mais sua conexão com o público, por mais que sejam interpretados por grandes atores. Quem sai-se melhor nesse quesito é Steve Carrell, que consegue imprimir um pouco de humanidade a seu Mark Baum, um homem torturado pelas lembranças do irmão suicida e por um casamento em frangalhos com a compreensiva Cynthia (Marisa Tomei). Afora ele, os personagens falham em se comunicar com a emoção da plateia, desfilando pela tela desesperados por dinheiro e tentando lucrar com a desgraça alheia. É difícil encontrar um ponto de conexão com qualquer um deles, o que, somado à relativa complexidade da trama, torna o espetáculo ainda mais árduo para o público que procura apenas um entretenimento leve. Por mais que o esforço da produção em se fazer entender seja louvável, o filme de Adam McKay esbarra na própria natureza de seu tema, hermético desde sempre.



Christian Bale chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante - e é seu personagem quem dá o pontapé inicial na história: Michael Burry é um excêntrico investidor, dono de um olho de vidro e modos esquisitos que, analisando o mercado, percebe que em alguns anos a bolha imobiliária que sobrevive de hipotecas da população norte-americana irá estourar, causando uma crise sem precedentes na economia. Esperto, ele resolve apostar nessa certeza e compra milhares de dólares em títulos - e acaba chamando a atenção de outros ambiciosos especialistas no setor, entre eles o próprio Mark Baum, que entra por acaso no negócio depois de um telefonema por engano e leva seus sócios e colegas de trabalho com ele na aventura. É também buscando a fortuna rápida que dois jovens empresários, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), embarcam na arriscada tentativa de vencer contra o mercado - e tudo é visto à distância (mas não muita) pelo experiente Jared Vennett (Ryan Gosling), que é uma espécie de narrador, que tenta dar luz a todas as tramoias e complicações do roteiro.

Baseado em um livro do mesmo Michael Lewis de "O homem que mudou o jogo" - em que Brad Pitt tentava vencer como gerente de um time de futebol americano baseado exclusivamente em cálculos matemáticos - e dotado de um ritmo empolgante que quase disfarça o fato de ser tão complicado, "A grande aposta" se ressente basicamente de tratar de um assunto tão radicalmente distante do público médio. Não há nada de errado em sua estrutura ou sua costura cinematográfica, tudo funciona como um relógio, desde as atuações inspiradas até a direção precisa e a edição exata. O que atrapalha é unicamente seu tema, por mais que o roteiro oscarizado tente traduzir em imagens e exemplos mundanos todo o festival de jargões e complexidades de seu universo. Quem quiser arriscar-se a uma sessão mesmo sabendo de antemão que deixará passar muitos detalhes tem muito com o que se divertir, mas não deixa de ser um tanto chato passar mais de duas horas batalhando arduamente com o cérebro quando o objetivo é se divertir. Não é um filme ruim, apenas bastante complicado.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

GAROTAS DO CALENDÁRIO

GAROTAS DO CALENDÁRIO (Calendar girls, 2003, Touchstone Pictures/Buena Vista Pictures, 108min) Direção: Nigel Cole. Roteiro: Juliette Towhidi, Tim Firth. Fotografia: Ashley Rowe. Montagem: Michael Parker. Música: Patrick Doyle. Figurino: Frances Tempest. Direção de arte/cenários: Martin Childs/Mark Raggett. Produção: Nick Barton, Suzanne Mackie. Elenco: Helen Mirren, Julie Walters, Ciarán Hinds, Celia Imrie, Penelope Wilton, Linda Bassett, John Alderton, Annette Crosbie, Geraldine James, Georgie Glein. Estreia: 09/8/03 (Festival de Locarno)

É impossível não lembrar de "Ou tudo ou nada" quando se assiste à "Garotas do calendário". Assim como na comédia de Peter Cattaneo - que ousou desafiar "Titanic" na corrida ao Oscar 98 -, o filme de Nigel Cole parte de um pressuposto inusitado para falar sobre autoestima, amizade e solidariedade sem nunca apelar para o sentimentalismo óbvio e a caricatura. Ambos os filmes tem o delicioso senso de humor inglês e os dois se subvertem a lei não escrita de que apenas os jovens e belos tem direito a ter orgulho do próprio corpo. Baseado em uma história real, "Garotas do calendário" é um entretenimento de primeira qualidade: divertido, simples, emocionante e repleto de grandes atrizes, lideradas pela sempre ótima Helen Mirren (indicada ao Golden Globe) e Julie Walters. E, mais do que isso, é mais uma prova de que boas histórias são universais mesmo quando parecem falar apenas sobre o próprio quintal - Tolstói sorriria de orelha a orelha.

A trama se passa na pequena cidade de Knapely, localizada emYorkshire, na Inglaterra. É lá, em uma localidade modorrenta e tediosa, que um grupo de mulheres de meia-idade se reúne, religiosamente, para discutir assuntos tão excitantes quanto jardinagem e decoração - além de tomarem parte em concursos de bolos e coisas do tipo. Pouco afeitas a esse marasmo, algumas das integrantes do Instituto Feminino sonham em tomar parte de algo mais divertido e, sem que percebam, logo tem a grande chance de fazer isso acontecer: a morte do marido de Annie Clarke (Julie Walters), vítima de leucemia, dá uma ideia à Chris Harper (Helen Mirren): como forma de arrecadar dinheiro para comprar um sofá para a sala de espera do hospital da cidade, ela sugere que seu grupo pose para um calendário a ser vendido na comunidade. Todas aceitam, até que um detalhe as pega de surpresa: Chris quer que elas posem nuas, em atividades cotidianas. Batendo de frente com a líder do Instituto, a severa Marie (Geraldine James), o grupo aceita o desafio - e suas vidas se transformam em uma roda-viva de compromissos e elogios pelo país inteiro, além de mudarem também seu dia-a-dia familiar e conjugal.


Se Chris, no papel de líder do grupo dissidente, entra em crise em seu casamento com Rod (Ciarán Hinds) e se afasta sem perceber da criação do filho, outras companheiras se descobrem mais femininas e desejáveis, especialmente Ruth (Penelope Wilton), que descobre o relacionamento extraconjugal do marido e o abandona sem maiores dramas. A felicidade e o orgulho, porém, ficam ligeiramente ameaçados quando, descobertas por Hollywood, elas nem se dão conta do afastamento de Chris e Annie - antes melhores amigas inseparáveis, elas veem a fama e o prestígio atrapalhar seu relacionamento, principalmente quando os objetivos do calendário tornam-se diferentes para as duas: enquanto Chris aproveita o momento de celebridade para promovê-lo, Annie prefere responder às cartas enviadas por centenas de mulheres que passaram por seu drama de perder o marido. Tal impasse as coloca em caminhos quase opostos quando precisam desafiar o preconceito e o conservadorismo de seus vizinhos, a princípio chocados com as fotos, mas depois encantados com o resultado inesperado que elas produzem.

Uma história real contada com respeito e sinceridade, "Garotas do calendário" não é um filme perfeito. Sua segunda metade - quando elas passam a experimentar o gostinho da fama - é menos interessante do que sua primeira parte, em que o humor rola solto sempre que as tentativas de fazer as famigeradas fotografias surgem pela frente. Helen Mirren segura com maestria a responsabilidade de liderar um elenco feminino impecável, transitando sem erro entre o drama e a comédia mesmo quando o roteiro nem sempre lhe dá material para isso: o conflito entre as amigas no terço final da narrativa soa um tanto forçado para providenciar o desfecho emocional, mas Mirren e Julie Walters são tão boas que conseguem até disfarçar tal artifício pouco criativo. No final das contas, elas e suas companheiras fazem valer o espetáculo, que transcorre de forma agradável e bem-humorada até o final alto astral. Um excelente feel good movie, com tudo que se pode esperar de uma produção com o DNA britânico.

terça-feira, 18 de abril de 2017

SOB A SOMBRA

SOB A SOMBRA (Under the shadow, 2016, Wigwam Films, 84min) Direção e roteiro: Babak Anvan. Fotografia: Kit Fraser. Montagem: Christoper Barwell. Música: Gavin Cullen, Will McGillvray. Figurino: Phaedra Dahdaleh. Direção de arte/cenários: Nasser Zoubi/Karim Kheir. Produção executiva: Patrick Fischer, Khaled Haddad, Nick Harbinson, Duncan McWilliam. Produção: Emily Leo, Oliver Roskill, Lucan Toh, Tim Werenko (versão em inglês). Elenco: Narges Rashidi, Avin Manshadi, Bobby Naden, Arash Marandi, Aram Ghasemy. Estreia: 22/01/16 (Festival de Sundance)

Um filme de terror iraniano? Pode parecer estranho que um país com uma tradição de produções tão calcadas no realismo seja capaz de criar algo notável em um gênero cujos principais elementos divergem radicalmente de sua filmografia, mas toda regra tem sua exceção. E nesse caso, a exceção é "Sob a sombra", filme de estreia do jovem Babak Anvari, que concorreu a uma vaga entre os indicados ao Oscar 2017 como representante do Reino Unido. Reino Unido? Explica-se: apesar de passar-se em Teerã, o filme de Anvari é uma coprodução entre o Reino Unido, Catar e Jordânia (onde foi realmente filmado). Isso explica, em parte, sua liberdade em questionar, através da protagonista, Shideh, a posição da mulher no país - em especial no momento em que se passa a trama, logo após a Revolução Islâmica, quando o Irã estava em guerra com o Iraque e bombardeios eram comuns e parte da rotina da população. Relegada à segundo plano na sociedade, sem conseguir nem mesmo retornar aos estudos na Faculdade de Medicina, é ela que, sozinha, tentará salvar a si mesma e à filha pequena de ameaças sobrenaturais que povoam seu prédio - vítima constante de ataques à bomba e gradualmente esvaziado pelo medo dos habitantes. Dotada de grande força e coragem em encarar fatos inexplicáveis, ela mostra que de frágil seu sexo não tem nada - e, de quebra, leva a plateia junto em um pesadelo sutil mas bastante apavorante.

Sem apelar para efeitos visuais mirabolantes, Anvari segue a linha da sugestão, se apoiando basicamente no clima construído pela fotografia e pela trilha sonora, nem sempre deixando óbvio ou previsível o que está por acontecer. Sua concisão é admirável: em menos de 90 minutos ele consegue contar sua história sem torná-la superficial ou simplista. É só depois de dois atos calcados na realidade que ele finalmente começa a apavorar a plateia, a princípio com pequenos acontecimentos estranhos, e depois, conforme Shideh vai ficando sozinha em seu edifício, com sequências de fazer qualquer um pular da poltrona - e o melhor de tudo: com uma discrição ímpar, totalmente amparada nos medos mais primitivos do espectador. Não há sangue, nem mortes violentas, nem assassinos mascarados: em "Sob a sombra" o terror é puramente aquele que todo mundo prefere não lembrar que pode existir de verdade mas nem sempre consegue.


Quando o filme começa, Shideh (a ótima atriz Narges Rashidi) acaba de ver recusada sua tentativa de voltar à faculdade - trancada por ocasião da Revolução. Frustrada, ela não encontra apoio nem do marido, Iraj (Bobby Naderi), que logo em seguida é chamado para trabalhar fora do país, em uma zona de guerra. Vivendo em um prédio frequentemente alvejado por bombardeios, ela se nega a abandonar o apartamento - como fazem todos os seus vizinhos, apavorados com a situação - e resolve permanecer em sua casa, ao lado da filha pequena, Dorsa (Avin Manshadi). Com o tempo, porém, a guerra passa a ser sua menor preocupação: depois de perder sua boneca preferida, Dorsa começa a sofrer de uma febre intermitente e alega ter medo dos djinns (demônios da cultura muçulmana) que estão à sua volta. Informada de que tais demônios se aproveitam do medo e da fragilidade psicológica das pessoas, Shideh se dedica a procurar o brinquedo da filha, cujo desaparecimento é uma evidência a mais da presença do mal. Sozinha, ela lida com o medo do desconhecido e com as possibilidades cada vez maiores de mais bombas caírem em sua cabeça.

"Sob a sombra" é um filme inteligente: não apenas critica a visão da sociedade iraniana sobre a mulher como também consegue ser extremamente eficaz em suas tentativas de imprimir uma atmosfera de tensão e claustrofobia constantes. Com enquadramentos clássicos, Anvari convida o espectador a uma viagem aparentemente banal, mas repleta de pequenos momentos que, juntos, se transformam em uma experiência assustadora. Materializações inesperadas, sons vindos do nada, sensações angustiantes... tudo faz parte da receita criada pelo diretor, que acerta em cheio em não exagerar nada: cada cena, cada sequência, cada diálogo é crucial para a trama e seu desenvolvimento, o que evita tempos mortos e uma profusão de efeitos visuais que apenas enfraqueceria a história. Com doses exatas de cada ingrediente, "Sob a sombra" é uma grata surpresa para aqueles que procuram fugir dos blockbusters hollywoodianos mas ainda não estão preparados para abdicar totalmente de seus elementos. Uma pérola!

segunda-feira, 17 de abril de 2017

FRAGMENTADO

FRAGMENTADO (Split, 2016, Universal Pictures, 117min) Direção e roteiro: M. Night Shyamalan. Fotografia: Michael Gioulakis. Montagem: Luke Ciarrocchi. Música: West Dylan Thordson. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Mara LePere-Schloop/Jennifer Engel,Dennis Madigan. Produção executiva: Kevin Frakes, Buddy Patrick, Ashwin Rajan, Steven Schneider. Produção: Marc Bienstock, Jason Blum, M. Night Shyamalan. Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Haley Lu Richardson, Jessica Sula. Estreia: 26/9/16

Poucos cineastas conheceram o céu e o inferno da indústria hollywoodiana tão de perto quanto M. Night Shyamalan: em 1999, seu "O sexto sentido" tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria da história e lhe rendeu indicações ao Oscar de diretor e roteiro (além de ter concorrido também à estatueta de melhor filme). Tido como uma das maiores promessas para o cinema do século XXI, ele conseguiu o que muitos diretores querem mas demoram anos para conquistar (quando conquistam): controle artístico absoluto de suas obras. Foi assim que construiu uma carreira de personalidade e características próprias, cujos filmes nem sempre confirmavam as expectativas (do público, da crítica e dos estúdios), como "Corpo fechado" (2000), "Sinais" (2002) e "A vila" (2004) . Foi somente a partir de "A dama na água" (2006), porém, que seus detratores finalmente começaram a encontrar motivos para comemorar: fracasso comercial e crítico, o conto de fadas estrelado por Paul Giamatti deu início a uma série de fiascos que, por motivos diversos, transformaram o talentoso diretor em piada no meio cinematográfico. Trabalhando por encomenda em produções fraquíssimas - como "O último mestre do ar" (2010) e "Depois da Terra" (2013), Shyamalan tomou uma decisão acertadíssima: voltou às origens e, sem pretensões, lançou o subestimado "A visita" (2015), que, sem atores conhecidos no elenco e com um orçamento de apenas 5 milhões de dólares, rendeu quase 100 milhões pelo mundo. Com a autoconfiança reestabelecida, ele pode, então, voltar seus olhos a um projeto muito querido: surgia assim "Fragmentado", mais um trabalho feito com trocados (9 milhões de orçamento) e que, graças à propaganda boca-a-boca, não apenas chegou perto de 300 milhões de arrecadação mundial como devolveu ao cineasta o respeito perdido no meio do caminho.

Perto do imenso sucesso de "O sexto sentido", a bilheteria e o impacto de "Fragmentado" pode até parecer discreto, mas pela primeira vez em anos, Shyamalan voltou a ser assunto, comentado e elogiado pelos fãs de cinema, pela imprensa e até mesmo por executivos dos grandes estúdios. E o mais empolgante: fazendo justamente aquilo que sabe fazer de melhor, construindo climas, prendendo o interesse da plateia por seus personagens e manipulando com maestria todos os elementos de um filme de suspense - apenas para entregar, em seus segundos finais, uma surpresa aos antigos entusiastas, um fecho de ouro que amplia o alcance da história e a empurra a direções inimagináveis até então. Mais uma vez evitando o horror explícito e se dedicando a dar consistência à sua narrativa através do cuidado com o roteiro e o elenco escolhido, o cineasta faz um gol de placa ao misturar fatos comprovados cientificamente com uma alta dose de imaginação e tensão.


Novamente a história se passa na Filadélfia, cenário de seus filmes anteriores, e começa com o rapto de três adolescentes, sequestradas no estacionamento de um shopping-center. O raptor, como elas descobrem assim que acordam em um pequeno quarto sem janelas e com isolamento acústico, é o calado Dennis (James McAvoy), um homem quieto, reservado e que, aparentemente tem planos bem específicos para suas reféns. Conforme o tempo vai passando, porém, as meninas descobrem que há algo de muito errado em Dennis: sofrendo de um transtorno que lhe faz ter múltiplas personalidades, ele se apresenta a elas com variadas identidades, que vão desde Hedwig, um menino de nove anos, até Patricia, uma mulher que parece ter uma convivência tranquila com Dennis. Tentando encontrar uma maneira de escapar do cativeiro, a tímida Casey (Anya Taylor-Joy, do sucesso independente "A bruxa") lembra de sua infância, quando aprendia a caçar com seu pai - e faz amizade com Hedwig, acreditando que ele pode ajudá-la. Enquanto isso, outra personalidade do criminoso, Barry, frequenta sessões de terapia com a doutora Karen Fletcher (Betty Buckley), que percebe que algo de muito errado está acontecendo com seu paciente - que tem, na verdade, 23 personalidades dentro dele.

Se o roteiro de "Fragmentado" demonstra o poder de Shyamalan em envolver o público com histórias elaboradas e inteligentes, é preciso aplaudir de pé o trabalho de seu ator principal. Sem medo de cair na caricatura e oferecendo nuances sutis e assustadoras a todos os personagens criados pelo cineasta, o inglês James McAvoy faz um dos melhores trabalhos de sua carreira, já pontuada por grandes atuações, em filmes tão díspares quanto "O último rei da Escócia" (2006), "Desejo e reparação" (2007) e a série "X-Men", onde vive a versão jovem do Professor Xavier. Substituindo Joaquin Phoenix - que já havia trabalhado com o diretor em "Sinais" e "A vila" -, McAvoy engole tudo à sua volta, com uma interpretação impecável que torna críveis até mesmo os momentos mais bizarros da trama. Aposta certeira de Shyamalan, ele foge do óbvio e do exagero na criação de cada uma das personalidades do protagonista, sempre deixando o espectador perceber que existe uma unidade que as interliga. Um dos trabalhos de atuação mais empolgantes da temporada, o desempenho de McAvoy é, juntamente com a coragem do diretor em dar vários passos atrás na carreira para poder retomá-la, o maior e mais recompensador atrativo de "Fragmentado", um suspense de primeira linha - e que termina de forma a deixar qualquer um roendo as unhas de expectativa.

sábado, 15 de abril de 2017

SANGUE PELA GLÓRIA

SANGUE PELA GLÓRIA (Bleed for this, 2016, Verdi Productions, 117min) Direção: Ben Younger. Roteiro: Ben Younger, estória de Ben Younger, Pippa Bianco, Angelo Pizzo. Fotografia: Larkin Seiple. Montagem: Zachary Stuart-Pontier. Música: Julia Holter. Figurino: Melissa Vargas. Direção de arte/cenários: Kay Lee/Kim Leoleis. Produção executiva: David Gendron, Michael Hansen, Myles Nestel, Joshua Sason, Martin Scorsese, Michelle Verdi, Lisa Wilson. Produção: Bruce Cohen, Noah Kraft, Pamela Thur, Emma Tillinger Koskoff, Chad A. Verdi, Ben Younger. Elenco: Miles Teller, Aaron Eckhart, Ciarán Hinds, Katey Sagal, Ted Levine, Amanda Clayton. Estreia: 02/9/16 (Festival de Teluride)

Em 2005, o diretor Ben Younger lançou a comédia romântica "Terapia do amor", estrelada por Meryl Streep e Uma Thurman - que revelava um senso de humor inteligente e com altas doses de realismo. Demorou, no entanto, mais de dez anos para que o cineasta voltasse para trás das câmeras - e surpreendentemente, com um filme radicalmente diferente do anterior. Uma história real, dramática e inspiradora, "Sangue pela glória" pode não ser exatamente original, revolucionário ou mesmo marcante, mas, realizado pela mísera quantia de seis milhões de dólares e filmado em meros 24 dias (segundo o próprio Younger), é uma produção honesta e simpática, valorizada pela atuação de Miles Teller, um jovem ator em ascensão que demonstra comprometimento e dedicação a cada novo trabalho. Assumindo de corpo e alma o protagonismo de uma história tão inacreditável quanto emocionante, Teller demonstra segurança necessária para tornar críveis mesmo algumas reviravoltas que, em mãos menos competentes, poderiam soar totalmente inverossímeis - apesar de terem realmente acontecido.

Parte de uma série de filmes que inclui os já clássicos "Rocky, um lutador" (1976), "Touro indomável" (1980) e "Menina de ouro" (2004), "Sangue pela glória" nem de longe tenta ser ousado em sua narrativa, seja ela visual ou verbal. O roteiro - escrito pelo próprio diretor - é simples, linear e sem grandes arroubos de criatividade, preferindo manter seu diálogo direto com a plateia ao invés de buscar artifícios modernosos. A edição segue a mesma ideia, assim como a fotografia naturalista, que evita filtros e efeitos para concentrar-se no desenvolvimento da trama: tudo no filme segue a mesma linha de extrema discrição, o que é uma espécie de alento em uma época em que qualquer produção sonha em ser épica. No entanto, essa sutileza em excesso também acaba por prejudicar um pouco o resultado final: por mais talentoso que Teller seja, por mais dramática que seja a história contada, sua conexão sentimental com a plateia não é tão satisfatória quanto poderia: ao abdicar de grandiosidade, Younger também opta por fugir do sentimentalismo - por consequência, impede uma maior empatia do público com seu personagem central.


Vinny Pazienza é um jovem lutador de boxe, talentoso e quase arrogante, que se dedica ao esporte com a mesma intensidade com que costuma apostar em cassinos e desafiar campeões de sua categoria. No auge de sua ascensão profissional, no início da década de 90, ele sofre um violento acidente de carro e, em consequência disso, vê ameaçada até mesmo a possibilidade de voltar a andar. Depois de passar por um doloroso e sacrificante tratamento, porém, Vinny resolve provar a todos que é capaz não apenas de caminhar novamente, mas de voltar aos ringues. Com a ajuda de seu treinador, Kevin Rooney (Aaron Eckhart), o rapaz desafia o próprio destino e surpreende a família, os amigos e o público ao anunciar que está pronto para voltar ao boxe - em uma categoria superior àquela de antes do acidente. Seu pai, Angelo (Ciarán Hinds), a princípio temeroso dos resultados da quase irresponsabilidade do filho, acaba por ser de crucial importância para sua autoconfiança - que inspira todos à sua volta.

Quem assistir à "Sangue pela glória" procurando por um grande filme, inesquecível e intenso, certamente irá se decepcionar, uma vez que o roteiro apresenta todos os clichês possíveis do gênero (herói sofredor que dá a volta por cima, o treinamento desgastante, o treinador compreensivo, o clímax final). Porém, quem buscar um entretenimento rápido e competente dentro de suas limitações, irá encontrar nele uma pequena pérola. Miles Teller tem carisma o bastante para conquistar o espectador, Aaron Eckhart está irreconhecível como Rooney, as cenas de luta são dirigidas com cuidado e em nenhum momento a narrativa escorrega no piegas. Não é um marco do cinema, mas tampouco uma produção frouxa e desinteressante: é um daqueles filmes que passam rápido, mas que também desaparecem rapidamente da memória. Mas vale pela volta de Younger, um talento a ser desenvolvido.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

O REGRESSO

O REGRESSO (The revenant, 2015, Regency Enterprises, 156min) Direção: Alejandro González Iñárritu. Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu, livro de Michael Punke. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alva Noto, Ryuichi Sakamoto. Figurino: Jacqueline West. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Beauchamp Fontaine, Hamish Purdy. Produção executiva: Markus Barmettler, Jennifer Davisson, David Kanter, Philip Lee, Jake Myers, James Packer, Brett Ratner. Produção: Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, Mary Parent, Keith Redmon, James W. Skotchdopole. Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domnhall Gleeson, Lukas Haas, Thomas Guiry, Will Poulter, Forrestt Goodluck, Kristoffer Joner. Estreia: 16/12/15

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Tom Hardy), Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem, Efeitos Visuais, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator (Leonardo DiCaprio), Fotografia
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme (Drama), Diretor (Alejandro G. Iñárritu), Ator/Drama (Leonardo DiCaprio) 

As três estatuetas conquistadas por "O regresso" na cerimônia do Oscar 2016 são marcantes por si mesmas: Leonardo DiCaprio finalmente saiu-se vitorioso, para alívio dos fãs que clamavam por isso no mínimo desde "Titanic" (1997); Alejandro G. Iñárritu levou seu segundo prêmio consecutivo de diretor (depois do exótico "Birdman"); e Emmanuel Lubezki tornou-se a primeira pessoa a acumular três Oscar seguidos de fotografia. Mas, apesar de todas essas curiosidades, é preciso dizer que elas apenas refletem o que fica claro ao término de uma sessão: mais do que a epopeia de um homem em busca de sobrevivência e vingança e mais do que um filme feito com a intenção de arrebatar o Oscar, "O regresso" é a comprovação da tenacidade, da versatilidade e do talento de Iñárritu como homem de cinema. Completamente diferente de todos os seus filmes até então - boa parte deles ainda na fase de colaboração com o roteirista Guillermo Arriaga - e muito mais ambicioso do que eles, sua odisséia de som e fúria é uma impressionante tour de force, valorizada pelo trabalho irretocável de DiCaprio, por um visual estonteante e uma história quase inacreditável - mas que, por incrível que pareça, foi inspirada em fatos reais.

Contada no livro de Michael Punke (publicado no Brasil pela editora Intrínseca à época da estreia do filme no país), "O regresso" chegou aos cinemas com algumas alterações cruciais em relação à obra original, compreensíveis do ponto de vista narrativo - e de certa forma mais empolgantes do que seriam caso houvesse fidelidade total. A maior diferença entre livro (e realidade) e filme é a criação de Hawk (Forrest Goodluck), filho do protagonista Hugh Glass com uma índia e motivo de suas desavenças com parte de seu grupo de comerciante de peles, pouco afeitos à miscigenação racial: é a morte de Hawk que, no filme, empurra Glass em direção à vingança, sentimento que o mantém vivo apesar da série de acontecimentos trágicos pelos quais ele passa. Na verdade, não há nenhum registro de que Glass tenha sequer se casado, especialmente com uma indígena, apesar de proceder o fato principal da história: ele realmente foi deixado à própria sorte por seus companheiros depois de quase morrer atacado por um urso - e realmente foi atrás dos responsáveis por isso, enfrentando desafios impensáveis em um inverno particularmente gelado no ano de 1823. Para retratar a natureza em toda a sua magnitude (assim como sua violência involuntária), Iñárritu e Emmanuel Lubezki resolveram usar a luz natural o máximo possível - o resultado é deslumbrante, mas em compensação, tal capricho arrastou as filmagens por um período extremamente longo de nove meses, entre o Canadá e o sul da Argentina, e inchou o orçamento inicial (de 60 milhões de dólares) para 135 milhões, recuperados graças ao sucesso de bilheteria - quase surpreendente em se tratando de um filme razoavelmente difícil de vender - pelo mundo todo.


Seu sucesso comercial, no entanto (mais de 500 milhões arrecadados no total), deve-se, em grande parte, à presença de Leonardo DiCaprio, um ator tão talentoso quanto popular - e bastante inteligente na hora de escolher seus projetos. Para encarar as difíceis filmagens de "O regresso", que o esgotaram fisicamente e o obrigaram inclusive a sair de sua dieta vegetariana para encarar um pedaço de carne crua, o ator abriu mão de estrelar "Steve Jobs", dirigido por Danny Boyle: o papel ficou com Michael Fassbender, que, por ironia, disputou a estatueta da Academia com o próprio DiCaprio. Para ter DiCaprio em seu filme, Iñárritu também fez sacrifícios (ainda que muito bem recompensados): adiou o início da produção para que seu protagonista filmasse "O lobo de Wall Street" (2013) e realizou seu "Birdman" (2014), que lhe rendeu os Oscar de filme, direção e roteiro original. Comparado com a grandiosidade de "O regresso", a história do ator de cinema que busca a redenção artística produzindo teatro sério é quase minimalista: em nenhum momento de sua carreira até então o cineasta mexicano havia demonstrado uma pretensão artística tão grande, apesar da complexidade narrativa de alguns de seus trabalhos anteriores, como "Amores brutos" (2000), "21 gramas" (2003) e "Babel" (2006), todos em parceira com Arriaga. O fim de sua colaboração é sentida em "O regresso" - apesar de ser um filme de encher os olhos e prender a atenção até o final, falta a ele um elemento crucial: um roteiro mais coeso e claro (fato evidente por sua ausência na generosa lista de 12 indicações à estatueta dourada). É, por vezes, difícil acompanhar a história, contada em três linhas narrativas paralelas: nunca fica claro, por exemplo, os motivos das brigas entre índios e brancos, e tampouco as brigas dos indígenas entre si. É louvável que Iñárritu não coloque os índios como vilões sanguinários, mas sempre que o foco se desvia de Glass para as desavenças internas das tribos inimigas o filme perde força e ritmo.

Felizmente isso acontece poucas vezes, já que a trama é centrada basicamente em Hugh Glass: parte integrante de um grupo de comerciantes de peles animais no início do século XIV, ele é brutalmente atacado por um urso, que o deixa à beira da morte. Sem condições de carregá-lo de volta para casa, seu capitão, Andrew Henry (Domhnall Gleeson), propõe a três de seus homens que fiquem encarregados de cuidar dele - e dar-lhe um enterro digno quando chegar a hora. Os três homens que se dispõem a isso são o filho de Glass (o mestiço Hawk), o jovem Jim Bridger (Will Poulter) e o ambicioso John Fitzgerald (Tom Hardy) - o único dos três a aceitar a missão puramente por dinheiro. Não demora muito, porém, para que Fitzgerald seja flagrado por Hawk tentando matar Glass e o resultado é trágico: o rapaz é assassinado diante dos olhos do pai, que é enterrado vivo por Fitzgerald, que mente à Bridger a respeito de sua morte. Surpreendentemente vivo - depois de violentamente ferido pelo urso e esfaqueado por seu novo inimigo - Glass encontra forças para sair de sua cova e partir em busca de revanche, enquanto um grupo de índios Arikara procura a filha de seu chefe, sequestrada por um homem branco.

Iñárritu não poupa a plateia de sequências de tirar o fôlego - seja pela beleza natural dos cenários, magistralmente fotografados, seja pela violência extrema de algumas cenas. Amparado por uma atuação devastadora de Leonardo DiCaprio e um Tom Hardy assustador roubando todas as cenas em que aparece - sua indicação ao Oscar de coadjuvante foi absolutamente merecida -, "O regresso" é um filme empolgante, apesar de sua duração excessiva (provavelmente oriunda de seu desejo óbvio de ser um grande épico) que o torna um tanto cansativo, e de sua falha em criar uma conexão mais sólida entre o protagonista e o público: o diretor está tão interessado em mostrar que é capaz de provocar espanto com seu visual que deixa de lado o desenvolvimento dos personagens. Um pecado que até pode não incomodar àqueles que se deixam deslumbrar pelas belas imagens, mas que o impede de ser ainda maior. Ainda assim é um ponto alto na carreira de todos os envolvidos.